quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

O PUTO DO PAPAI NOEL É UM TARADO



Não existe capitalismo no Edifício, nada se compra, tudo se consegue pedindo aos outros, todo material floresce em meio as máquinas que tudo produzem. Não existe dinheiro, não existe ganância, não existe fome ou pirâmides sociais. Homens trabalham em bares, restaurantes e em outros lugares quando não possuem aptidões para fazer outra coisa, outros produzem arte: músicas, livros, grafites, entre tantas outras coisas.

Ninguém mexe nas máquinas, isto é certo, as máquinas sempre existiram e se auto ajustam, mexer nas máquinas é um sacrilégio.

A população que sonha com o Mundo Posterior não entende sobre os assuntos econômicos abordados nestas projeções que na maioria das vezes se tornam pesadelos. No Natal as pessoas se sentam as mesas e aproveitam as companhias uma das outras, na maioria das vezes não há presentes físicos, quando há é um quadro pintado de próprio punho, uma música composta recentemente, um livro escrito, sempre coisas feitas por quem está presenteando.

Bram preparou uma noite de amor para Imala.

Ferzan compôs uma música para todos os conhecidos, tudo bem que sejam letras do Mundo Posterior, ninguém se lembra de detalhes como ele daquele lugar mesmo.

Imala resolveu não dar porra nenhuma pra ninguém.

Tariq adquiriu um monte de drogas e resolveu passar o Natal chapado.

Zlatko foi viajar para o 7432º andar.

Nesta época do ano as pessoas sonham muito mais no Edifício, sonham com um velho vestido de vermelho com uma barba branca, não gostam daquele velho escroto, se ele aparecesse no Edifício teria o rabo chutado até o Subterrâneo. É o símbolo de uma sociedade fadada ao fracasso, símbolo de ganância e um consumismo que ninguém no Edifício tem capacidade para entender. Odeiam aquele idiota que entrega presentes para os anões com pele de borracha.

Bram sonhou uma vez com uma anãzinha com pele de borracha que havia sido seqüestrada por um velho de vermelho e barba branca, foi estuprada cinco vezes antes de ser espancada e morta pelo bastardo. Que tipo de sádico é este que compra presentes e tem vontade de estuprar uma anã com pele de borracha? Nunca conseguiu entender este sonho.

Não há este tipo de comportamento no Edifício, os Duendes Mecânicos fazem um bom trabalho neste sentido. Trazem ordem em meio ao caos da individualidade. Não há violência em uma colméia, pois os Duendes Mecânicos funcionam como uma Abelha Rainha, mas é bom lembrar que não existem anões com pele de borracha por lá também.

Gustavo Campello

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

IMALA



Ela acompanha com seu olhar cada gesto dele, cada movimento. Enquanto ele está no palco cantando é como se fosse a única pessoa no Edifício para ela, é como se em todos os andares só existissem os dois. Imala ama Bram como talvez nem ele mesmo compreenda.

Não importa que este amor seja real ou não, pois é fato que todos os sentimentos humanos não passam de reações químicas no cérebro. Os duendes mecânicos já sabem disso há muito tempo, é só obter a reação química correta que todos os seres humanos são facilmente manipulados. Imala não passa de uma experiência pelas mãos dos duendes mecânicos. O amor que sente por Bram é apenas o elemento químico certo usado no momento apropriado.

Enquanto ele canta aquela música em que diz...

Eu assisto as ondulações alterando seus tamanhos
Mas nunca deixa a corrente
De impermanência morna e
Assim os dias flutuam por meus olhos
Mas ainda os dias parecem os mesmos
E as crianças em que você cuspiu
Enquanto tentam mudar os mundos deles
São imunes as suas consultas
Eles estão perfeitamente conscientes do que estão passando
  
...Ela desperta de tudo e passa a odiá-lo, mas sabe que é um ódio por causa das manipulações inconscientes que passou pela mão de seus pequenos inimigos cibernéticos. Porque mesmo sem a alteração química ela o amaria facilmente sem interferência nenhuma.

Mas porque o ódio e o despertar de tudo acontece só no trecho desta música?

Imala não imagina que as canções de Ferzan não são compostas por ele, imagina menos ainda que esta em específico fosse composta pelo Maquinista.

O amor dela é menor e menos válido por culpa dos duendes mecânicos?

O sexo tem um menor significado? O pau na sua boca é menos gostoso? O arrepio que sente quando goza é pura fantasia daqueles putos duendes mecânicos? Imala, se tivesse consciência de tudo o que tem passado, não acreditaria nisso nem em um milhões de anos. Por mais que tenha alterações químicas no seu cérebro teria amado Bram de qualquer jeito, um dia ela vai conseguir provar que sim, mas até lá seu cérebro vai ser uma massa de modelar entre dedos de alumínio e porcas e parafusos que servem como ligamento.

Ele ainda canta, outra música, ela continua hipnotizada, o ódio passou, tudo o que quer é ir pra casa e dormir depois de uma boa foda.

Gustavo Campello

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

FOO FIGHTERS



Foo Fighters era a segunda banda principal da noite naquele Rock In Rio. A maioria das pessoas estavam ali pra verem a banda do ex-integrante do Nirvana, que vinha fazendo um sucesso estrondoso naquele ano. Um monte de fãs levados pela ação midiática de uma bandinha de rock que vivia nas paradas de sucesso. A música Learn To Fly estava em todas as paradas e todo poser que fingia entender de rock adorava o que era enfiado goela abaixo deles.

Não que Vitor não gostasse de Foo Fighters, mas Learn To Fly estava longe, muito longe, de ser a melhor música daquele álbum. Stacked Actors era a melhor música do álbum novo para o Vitor, mas ele sabia que ela nunca estaria entre as mais tocadas, tinha um peso de rock, violenta e agressiva como o Nirvana sabia fazer tão bem. Dave Grohl era o integrante do Nirvana que Vitor menos gostava.

A banda entrou tocando Breakout, uma ótima música pra se começar um show, mas daí já emendou nas duas mais fraquinhas, My Hero e Learn To Fly, talvez pra queimar a veia pop já no início e poder embarcar em um show de rock de verdade.  Lá pro meio do show tocou Stacked Actor e Vitor pode entrar em uma rodinha pra dar umas cotoveladas.

Stack dead actors, stacked to the rafters
Line up the bastards all I want is the truth
Hey, hey now, can you fake it,
Can you make it look like we want
Hey hey now, can you take it
And we cry when they all die blonde

Lá pro final do show a namorada de Grohl, integrante da banda Hole, entrou no palco com um bolo de aniversário cantando Happy Birthday para o líder da banda. Havia passado da meia noite, era 14 de Janeiro já, portanto Dave Grohl estava fazendo 32 anos. Vitor já tinha, nos dias de hoje, mais do que o Dave Grohl naquela noite. Vitor, naquele começo de 2001, tinha feito 20 anos não devia fazer três semanas, tanto ele quanto Dave Grohl eram capricornianos.

Tocaram ainda Monkey Wrench e Everlong pra fechar o show. Muitas pessoas estavam ali só pra ver o Foo Fighters, deu uma esvaziada e Vitor quase conseguiu chegar na grade.

Estava próximo de Jorge agora, haviam se separado durante o show do Foo Fighters, mas agora estavam lado a lado.

- Os carinhas estão vazando – disse Vitor.

- A molecada queria ver o Foo Fighters.

- Azar deles – disse Vitor – a melhor banda vem agora.

Uma das melhores bandas em atividade estava prestes a pisar no Rock In Rio III, Vitor e Jorge estavam empolgados, esperaram muito para assistir aquele espetáculo.

Gustavo Campello

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

FERZAN



Ferzan vive uma vida silenciosa, gosta de tocar sua guitarra porque ela é barulhenta. Gosta do barulho que ele mesmo não pode fazer. Gritar com as pessoas, falar palavrões ao Deus-Fungo, xingar seus amigos...  Seus amigos que também são integrantes do Formigas de Mercúrio. Ferzan que inventou o nome da banda, eles não fazem ideia de onde ele tirou a ideia, eles não fazem ideia do que é Mercúrio, eles não fazem ideia de quem é Ferzan.

Ferzan é o homem que sonha acordado, uma anomalia no Edifício, ninguém desconfia. Se os Duendes Mecânicos desconfiarem ele pode ser arrastado para o subterrâneo, ter o coração arrancado e viver uma eternidade com larvas crescendo em sua pele.

Fugir é inevitável, ele sabe que existe algum lugar de fuga, ele sabe que seus sonhos um dia o irão levar para o Maquinista, mas até lá ele precisa tomar cuidado. Sempre alerta. Suas ideias são um perigo. Ele sabe que a cerveja vem da cevada, ele sabe que pessoas plantam a cevada, sabe sobre o processo de fermentação, sabe de tudo por causa dos sonhos que tem. Mas tudo acontece no Mundo Posterior. Ferzan sabe mais do que gostaria sobre tudo.

Seus olhos nunca se fecham. Quando fica muito tempo focando algo o Mundo Posterior se abre para ele, não se lembra exatamente quando isso começou. Sua memória não é boa, por mais que tente se lembrar do Mundo Anterior, não lhe vem nada.

Enfraquecidos o tempo todo, só para poder passar o tempo
Eu em meu próprio mundo, sim você aí ao lado
As aberturas são enormes, olhamos de cada lado
Nós éramos estranhos e por muito tempo distantes

Ele canta o trecho da música sabendo que a música não foi composta por ele. Nenhum dos integrantes da banda imaginaria que as letras não são compostas por ele. Bram já tentou compor algumas músicas, mas não ficaram tão boas. Ferzan é o grande compositor, mas nada é composto por ele. Tudo vem dos sonhos acordados.

Ele é estranho para um guitarrista, gosta de ficar nas sombras, afastado de tudo, longe das badalações da banda. O mais quieto, o mais discreto e o mais distante deles. Seus amigos se acostumaram com seu jeito esquisito, mas muitas pessoas preferem não se acostumar, não se aproximar.

Distante.

Sonhando.

Os Duendes Mecânicos não podem saber dele. Ferzan não pode confiar em ninguém, contar pra ninguém, pois os Duendes Mecânicos estão em toda parte. O Deus-Fungo não é onisciente, se fosse, Ferzan já estaria morto.

- Foda-se o Deus-Fungo – ele diz em voz alta. Arrepende-se no exato momento, mas nada acontece. “É...” – pensa – “O puto não é onisciente”.

Gustavo Campello

terça-feira, 9 de setembro de 2014

BECK



O primeiro show principal internacional daquele Rock In Rio III era do Beck, um cara que vinha sendo chamado de o novo David Bowie, que estava revolucionando a música. Logicamente que uma comparação com o David Bowie era muito exagerada, mas o cara vinha realmente revolucionando em alguma coisa. Parece que foi caindo no ostracismo com o tempo, pois faz muito tempo que não escuto nada de novo dele, desde Everybody’s Got To Learn Sometimes que ficou famosa com o filme Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças.

Antes de começar o show alguns idiotas faziam piadas infames como “Onde está o Beck?”, e riam procurando por algum baseado no bolso. Humor infantil. Vitor não tinha paciência pra este tipo de humor. Sentia certa vergonha alheia que o incomodava. Quando ninguém achava mais graça o idiota repetia “Onde está o Beck?” e ria sozinho.

Finalmente Beck entrou em cena tocando Novacane, seguida de The New Pollution. Ambas eram do álbum Odelay, seu trabalho mais famoso que havia sido lançado em 1996. O show teve mais músicas do Odelay do que do álbum Midnite Vultures que era mais recente. Beck ainda hoje grava suas músicas, neste ano de 2014 mesmo lançou o Morning Phase, mas naquele show parecia que ele meio que confirmava algo do tipo “Odelay é meu melhor álbum mesmo, então não vou cantar muitas músicas do álbum novo que não vale a pena”. E isto era estranho.

Logo em seguida tocou Loser, a música que o catapultou para o estrelato. Quem aqui viveu nos anos 90 e nunca ouviu Loser é porque estava passeando em alguma colônia em Marte na época. A galera foi a loucura. O idiota perto de Vitor dava uma tragada no baseado e falava alto pra ele mesmo “Putz, este Beck tá da hora!”.

Foi só na quarta música que o álbum novo deu as caras, com Mixed Bizness. Ele acabou tocando só mais duas dos novos sons, Nicotine & Gavy veio logo na sequencia e Milk & Honey foi tocada lá pro meio do show.

Mas foi com a música Tropicalia, no meio do show, que Beck pareceu se encaixar bem com o jeito abrasileirado do festival:

you're out of luck
you're singing funeral songs
to the studs
they're anabolic and bronze
they seem to strut
in their millennial fogs
'til they fall down and deflate

Devil’s Haircut parecia que ia fechar a noite, a música chegou a ser número 1 nas paradas da MTV aqui no Brasil. O show estava muito bom e ele resolveu dar um bônus pra galera com Where It’s At. Se despediu e Vitor, que estava no meio da galera, conseguiu chegar mais perto do palco quando todos começaram a correr pro banheiro.

Gustavo Campello

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

BRAM



Bram sente que não é Bram. Ele sabe que seu cérebro é remexido durante a madrugada enquanto não está consciente. Pode sentir pontos onde suas sinapses foram trocadas pelos Duendes Mecânicos.

“Até que ponto eu sou eu mesmo? Até que ponto eu tomo minhas decisões?”

É este o tipo de pensamento que passa pela sua mente, pois seu individualismo é roubado pelos Duendes Mecânicos, que fazem o que bem entendem com seus sentimentos. Que chorar, mas seu choro é seu mesmo? Que amar, mas seu amor é verdadeiro? Quer sentir raiva, mas ela é autentica?

Sente saudades de coisas que nunca viveu, mas será que realmente nunca viveu? E se as memórias foram retiradas de sua cabeça? De que lado os Duendes Mecânicos estão? Do Deus-Fungo? Será? E se eles estiverem agindo por conta própria? E se tiverem traído o Deus-Fungo e estão agora ajudando o Maquinista? E o povo com a pele queimada sem coração e com larvas no corpo que vivem no subterrâneo? Porque Bram sonha com o Mundo Posterior, mas também sonha com o Subterrâneo? Não conhece ninguém que sonha com o Subterrâneo.

Imala não sonha com o Subterrâneo, sonha apenas com o Mundo Posterior. Gosta de acordar e olhar Imala dormindo, mas na maioria das vezes é ela quem acorda primeiro. Quando Bram acorda com aquele sentimento de que ainda está dormindo, parece conseguir ver cogumelos em cima da cabeça dela, com tentáculos forçando a entrada em seu cérebro. Bram se indaga se também tem cogumelos invisíveis no topo de sua cabeça.

Os cogumelos com tentáculos são anjos enviados do Deus-Fungo, todos sabem disso, alguns conseguem enxergá-los. Principalmente aqueles que já utilizaram drogas com fungos. Bram não confia no Deus-Fundo, nem nos Duendes Mecânicos e muito menos nas lendas sobre o Maquinista.

Uma vez usou uma droga, difícil de encontrar, com coloração azulada. Em suas viagens encontrou o Maquinista que lhe disse apenas uma coisa:

“Eu estou feliz e eu espero que você também esteja
Eu amei tudo o que eu precisava amar”

Não entendeu o que ele queria dizer falando aquilo de forma cantada, como se fosse uma música.

Bram estava se sentindo estranho naqueles dias, Imala já havia percebido, todos os seus amigos já haviam percebido. Levantou de madruga e deixou Imala dormindo naquela noite, foi até o armário e pegou uma lata de tinta azul. Percorreu ruelas estranhas e escuras sem que ninguém o notasse. Havia pouca movimentação naquele horário.

Bram enfiou a mão na lata de tinta e pintou com a própria mão, estava em transe, não sabia o que estava fazendo. Parou. Afastou-se da suposta obra de arte e leu:

“O céu é azul”

Gustavo Campello

terça-feira, 19 de agosto de 2014

ROCK IN RIO III (1º SÁBADO)



Foi um dos maiores eventos da década, aquele Rock in Rio III, mesmo tendo dias que não tinham nada haver com rock. Vitor, seu amigo Jorge e seu primo Giorgio com sua namorada Edith foram todos para o Rio de Janeiro. Era o dia 13 de Janeiro de 2001, Vitor havia largado a faculdade e já se preparava para começar ao cursinho no mês seguinte, estava com vontade de extravasar.

Quando chegaram à cidade do rock, o primeiro show já começara no palco principal. Cássia Eller estava cantando alguma de suas baladinhas.

- Eu que não quero ver isso – disse Vitor.

- Nem eu – confirmou Jorge.

Giorgio e a namorada se separaram ali, foram ver o show da Cássia Eller. Vitor e Jorge descobriram depois que ela arrancou a blusa e mostrou os peitos. Agradeceram aos céus por não terem ido naquele show. Ao invés disso estavam em um palco menor pulando ao show da banda Penélope, que era bem legalzinha e que havia sumido tão rápido como havia surgido.

Fernanda Abreu veio em seguida, Vitor quis ir ver o show, já que era apaixonado por ela. Em uma escala de mulheres bonitas, Fernanda Abreu vinha em segundo, logo após a Luciana Vendramini. Foi um show divertido, Evandro Mesquita fez uma participação especial relembrando os velhos tempos da banda Blitz, que tinha os dois em sua formação.

O calor era insuportável, um cara com uma mangueira molhava algumas poucas pessoas que conseguiam chegar próximo a ele. Vitor tirou a camiseta e tentou, sem sucesso, ser molhado. Um amigo de sua irmã viu Vitor na televisão em um flash ao vivo, inconfundível com aquele cabelo amarelo arrepiado no estilo Layne Stanley no álbum Dirty.

Quando o Barão Vermelho entrou em cena, já sabiam que era a hora da janta. Um show completamente dispensável. Tinham que se preparar pra chegar próximo ao palco durante os próximos dois shows seguidos.

O sol começava a se por no horizonte. A cerveja mais cara do mundo era vendida por ali. Um pedaço miserável de pizza tinha um valor, que se doado, poderia saciar uma pequena vila africana durante uma refeição. A cerveja nem estava tão boa, era de uma marca vagabunda, e a pizza parecia um pedaço de borracha bem fino.

Agora era começar a se enfiar na multidão e ir em direção ao palco. Os shows principais iriam começar. 

Gustavo Campello

terça-feira, 12 de agosto de 2014

INDAGAÇÕES PERIGOSAS ACERCA DO EDIFÍCIO



- Você nunca perguntou de onde vem a cerveja? – Ferzan tomava um gole da cerveja gelada logo após fazer a pergunta. Depois ficou encarando o caneco pela metade.

- Vem da maquina de cerveja, oras – Zlatko não entendeu muito bem a pergunta – que pergunta idiota.

- Sim, mas de onde vem a máquina de cerveja? Que composto é este? É uma mistura do que exatamente?

- Cara, este é o tipo de pergunta que não tem resposta. As máquinas de cerveja existem no Edifício, sempre existiram no Edifício e sempre vão existir no Edifício.

- Mas e as pessoas que aparecem do Mundo Anterior? E as lendas do Mundo Posterior. Você também tem os sonhos.

- Esse tipo de pergunta só complica a vida da gente. Quando a gente menos espera... Zapt! – Zlatko passou o dedo sobre a testa simbolizando uma incisão – Os Duendes Mecânicos mexem aqui dentro e tchau tchau.

- Os Subterrâneos também são lendas, histórias. Por acaso você já viu algum Sem-Coração com vermes pelo corpo?

- Não, mas não quero arriscar – Zlatko tomou outro gole da cerveja, olhou para Ferzan que continuava a pensar sobre a cerveja e finalmente disse – mas um Duende Mecânico eu já vi.

- Sério?

- Sim, existem muitos relatos de aparições, mas foi há uns cento e vinte anos atrás no 7432º andar. 

- No 7432º andar? – Ferzan não parecia pensar mais na cerveja.

- Isso mesmo, estava velho, devia ter mais de mil anos, era guardado por um ancião local. Ele me deixou ver porque eu tinha acabado de despertar aqui no Edifício e ficamos chegados.

- O que aconteceu com ele?

- Deve estar por lá ainda.

- E como você veio parar aqui? No 10213º andar? – Ferzan estava interessado na história. Aquele seu jeito calado era apenas uma fachada que escondia um homem cujo cérebro não conseguia descansar. O tempo todo pensando, se indagando e ao mesmo tempo com medo. Medo do Deus-Fungo. Medo da mudança cerebral imposta pelos Duendes Mecânicos. Lendas tão antigas, mas que ninguém tinha coragem de dizer que não eram reais. Lendas cuja autenticidade ninguém mais questionava.

- Longa história.

- E qual era o nome desse ancião? – Ferzan já planejava uma viagem ao 7432º andar sem que o amigo percebesse – onde exatamente ele morava lá no 7432º andar?

- O nome dele era... – Zlatko estava confuso, não conseguia se lembrar – era... – forçou a mente e uma dor percorreu todo seu corpo até parar na cabeça – ele morava no... – colocou a mão na cabeça limpando o suor frio que lhe escorria pela testa – ele era o...

Os dois se entreolharam assustados. Era possível sentir o pânico quase palpável vindo de Zlatko, que por fim disse - Eu não me lembro!

Gustavo Campello

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

MARKY RAMONE AND THE INTRUDERS



Vitor, Marcel e Jorge iam sempre naquele bar alternativo da cidade, chamava Ozz, era sujo, escuro e com pessoas iguais a eles. No fundo de um corredor tinha aquele saudoso quadro do Incrível Hulk e o palco era bem pequeno. Desta vez viria uma atração internacional pelo exorbitante preço de dez reais. Marky Ramone, aquele mesmo cara que foi baterista do Ramones, viria com sua banda, os The Intruders.

Vitor havia perdido o show do G.B.H. por estar muito doente, devia ter sido um show antológico naquele lugar, mas agora ele veria pelo menos um dos integrantes do Ramones tocar.

Chegando lá, o lugar estava lotado, os rostos conhecidos de sempre estavam marcando a presença habitual, mas tinha um monte de caras novas por ali. Pessoas que não frequentavam o Ozz, mas eram todos bem vindos. Vitor, Marcel e Jorge estavam com os ingressos garantidos.

O repertório cotinha algumas músicas famosas do Ramones, mas a maioria das músicas era do álbum The Answer To Your Problems? Que havia sido lançado no ano anterior. Vitor tinha apenas o primeiro álbum da banda.

Foi então que eles começaram a tocar Good Luck You’re Gonna Need It, parecia que tocavam para o Vitor, afinal sorte era uma coisa que ele acreditava que precisava muito. Tinha a teoria de que sofria de uma doença incurável denominada Azar Crônico. Não tinha sorte com empregos, não tinha sorte com mulheres, não tinha sorte com dinheiro, não tinha sorte com muita coisa.

You're looking for something you can't find
Life ain't no sixties rhyme
You're miserable and frustrated too, yeah
Nobody's wants to be with you
Complain and whine is all you do
No one's gonna listen to you
Invisible, we see right through you

Olhou para o lado e viu seus amigos pulando ao lado dele, tinha alguma sorte afinal.

Quando a música parou Marky Ramone arremessou a baqueta em direção a cabeça de Vitor, ele estava distraído. Olhou para frente e viu um objeto não identificado vindo em direção ao seu nariz. Abaixou à cabeça, o filho da puta que estava atrás dele pegou a baqueta.

- Azar Crônico – disse Vitor olhando para Jorge, era muito melhor ter tido as fuças arrebentadas pelo Marky Ramone, pegaria a baqueta e teria história pra contar.

Vitor e Jorge ficaram estarrecidos olhando para a baqueta com o moleque atrás deles. Marcel pulava e entrava em alguma rodinha de bate-cabeças que se formava.

Vitor achou melhor esquecer a baqueta e aproveitar o resto do show, Jorge concordou. Foram todos para a rodinha tomar uns socos e ganhar uns hematomas.

Gustavo Campello

segunda-feira, 28 de julho de 2014

SERES HUMANOS SONHAM COM DUENDES MECÂNICOS



Toda pessoa tem sua maneira de ser, seu jeito de agir, sua identidade de pensamento. Suas ações fazem dela o que ela vem a se tornar, mas quanto o meio em que ela vive influencia isso?

Todo ambiente tem sua maneira de ser, seu jeito de agir sobre outras pessoas, sua identidade de existência. O lugar onde vivemos é quase como um ser vivo que nos envolve em sua canção inaudível e em seus sinais invisíveis.  

Tariq não sabe mais quem ele é, algo parece errado desde que seus olhos começaram a enxergar os sinais invisíveis. Ele não sabe, mas logo seus ouvidos irão escutar uma canção inaudível e tudo se fechara em um ciclo de violência. Os Duendes Mecânicos não gostam de pessoas diferentes, os Duendes Mecânicos são parte do Mundo Intermediário, parte do ambiente, agindo como glóbulos brancos demoníacos, expurgando a doença do pensamento livre.

- Nós sabemos que existe um outro mundo, um mundo de sonhos, um mundo proibido.

Tariq não sabe por que disse isso em voz alta, ele sabe que é perigoso.

No Mundo Intermediário não existe morte, não existe fome e não existem doenças, mas de que adianta tudo isso se não existe liberdade? Existem muitas outras pessoas como Tariq, muitas foram pegas e levadas para o subterrâneo, outras escaparam para o Mundo Posterior, a maioria ainda se encontra aqui, escondida, vivendo em fuga pelo Edifício.

Os Duendes Mecânicos são agentes da ordem, do controle, da opressão e da fantasia que se interpõe ao sonho. A fantasia real que impede que busquemos algo de diferente para nossas vidas.

Os Duendes Mecânicos são as células materializadas do Deus-Fungo neste plano, assim ele destruiu a ordem cósmica das coisas, pois este não é o mundo destinado ao Deus-Fungo. Uma invasão aconteceu há muito tempo atrás. Faz tanto tempo assim? Mil anos? Cem anos? Quatro minutos? Quem se importa?

Tariq sabe que sua vida está por um fio, quer continuar tocando bateria com os Formigas de Mercúrio, mas não pode mais ser conivente com o estado de brutalidade e opressão imposto pelo Deus-Fungo.

É hora de lutar.

É hora de resistir.

Espere a revolução!

Gustavo Campello

terça-feira, 22 de julho de 2014

LOU REED



Vitor já curtia Lou Reed naquela época de faculdade. Os anos 2000 haviam chegado e os disco voadores continuavam a ser coisa do futuro.  Nesta época ele tinha uma conta de e-mail em um provedor argentino com sede em São Paulo, não lembrava mais o nome do provedor que nem existe mais. Entrou no e-mail e viu que tinha uma promoção pra ganhar um par de ingressos pro show do Lou Reed dia 14 de Novembro, na semana seguinte.

A promoção era simples, tinha que entrar em um questionário e responder cada uma das vinte perguntas em menos de dez segundos. Pra pessoa não ter tempo de procurar em sites de busca pelas respostas, obviamente. Cada pergunta tinha cinco opções  e era preciso marcar as certas.  Tinha perguntas simples como: Qual era a banda que Lou Reed fazia parte? (Velvet Underground, lógico!). Qual famoso artista promoveu a banda de Lou Reed no começo da carreira? (Dã! Andy Warhol, cadê as perguntas difíceis?). Tinha as perguntas médias como: Com quem Lou Reed é casado? (Como é mesmo o nome dela? Laurie Anderson! Lembrou ao ver na lista entre outros cinco nomes). E tinha as perguntas nível foda: Qual o nome do travesti com quem o músico foi casado? (E agora? Fodeu! Vou no Bob! Não, Bob não... Raquel é um nome mais simpático, vou chutar em Raquel mesmo!).

Bingo! Dois dias depois Vitor tinha ganhado a promoção. Nunca havia ganhado nada e agora tinha em mãos dois ingressos para ver o Lou Reed – Que Bob que nada. Raquel, seu travesti gostoso!

Vitor e Marcel foram até o Credicard Hall, a mesma casa de show em que havia assistido ao show do Blur. Tinha muitas mulheres bonitas por lá e antes que o Lou Reed subisse no palco foi arrebatado pela garota alta de olhos escuros com cabelo ondulado ao seu lado.

Antes que pudesse formular alguma coisa o show começava com Paranoia Key of E, a preferida de Vitor do álbum Ecstasy que era responsável pela turnê que estava assistindo.

Let's play a game the next time we meet, ah
I'll be the hands and you be the feet
And together we will keep the beat
To paranoia key of E

Sabia que era um show que diria para seus netos que havia assistido. Uma energia estranha percorria todo o seu corpo. Só iria sentir isso de novo no show do Neil Young, mas isto já é outra crônica.

Acompanhava ao show vidrado e ao mesmo tempo contemplava aquele anjo dançando músicas como Turn to Me e Modern Dance até chegar na Ecstasy. Ela se movia graciosamente ao ritmo da música. A garota definitivamente dava um toque a mais ao show. Tudo estava mais interessante. Vitor queria chegar nela, falar com ela, casar com ela e ir com ela até o Inferno se fosse preciso.

Foi depois de Turning Time Around que começou a tocar Romeo Had Juliette. Era agora! Ele era Romeu e ali estava sua Julieta... Parou em frente dela e ficou paralisado, ela continuava a dançar e obviamente já havia percebido aqueles olhos estatelados nela, quase que hipnotizados por seus movimentos. Ela sorriu. Algo dentro do cérebro de Vitor explodiu em milhares de fragmentos, aquele sorriso era o LSD da vida que faltava para torna-lo uma pessoa feliz e ela simplesmente continuava a dançar.

Quando Vitor percebeu cinco músicas já haviam passado e eles dançavam agora juntos enquanto Lou cantava a clássica Sweet Jane no começo do bis que acabou já na música seguinte com Dirty Blvd.

- Como assim um bis com duas músicas? – Vitor gritou para o palco enquanto ela ainda sorria olhando de soslaio para ele.

Lou não podia ir embora assim, não podia acabar com o show enquanto aquele casal queria desesperadamente dançar e cantar até morrer. E não parou. Começou Walk On the Wild Side e tanto Vitor como a garota se olhavam compenetrados, algo especial estava acontecendo ali. O show acabou com a música seguinte: Perfect Day.

Just a perfect day
You made me forget myself
I thought I was someone else
Someone good

Vitor chegou ao ouvido dela e perguntou: Qual seu nome?

- Sweet Jane – ela respondeu no seu ouvido, lhe deu um beijo e sumiu na mutidão.

Lou Reed ainda cantava Perfect Day no palco. Vitor nunca mais a viu.

Sua Sweet Jane.

Aquela mesma, que os vinhos e rosas celestiais parecem sussurrar quando sorri.

Gustavo Campello

quinta-feira, 10 de julho de 2014

FUNGOS NO MACARRÃO



Bram não gosta de macarrão, acha que lembra os vermes que vivem nos braços dos sem-coração. Não que ele precise comer algo, afinal ninguém precisa comer algo no Mundo Intermediário. Indaga-se porque está ali naquele restaurante imundo com aquele prato de macarrão na sua frente? Porque se sente compelido a comer aquela merda? Parece um macarrão normal com molho de aspargos, seja lá o que for um aspargo. Pensa que aspargos não combinam com macarrão e sente vontade de vomitar.

O garfo vai até o prato quase de maneira automática, vai girando enquanto o macarrão vai enrolando entre seus dentes de metal. Bram olha pra tudo aquilo com nojo. O garfo parece adquirir vida própria enquanto o macarrão se aproxima com o macarrão até sua boca. Bram não quer abrir a boca, seus olhos tentam focalizar algo.

Tem algo andando em seu macarrão, ele enfia na boca mesmo assim, mastiga e passa mal. Vomita ali mesmo do lado de sua mesa. Sua frio e sente algo andando pela sua garganta, tentando chegar até seu cérebro.

Vomita mais um pouco até sentir que não tem mais vermes dentro dele.

Olha para o prato de macarrão, um velho se aproxima e joga o prato longe.

-Fungos! – o velho grita – Fungos por toda parte!

- Fungos? – diz Bram sem entender nada.

O velho é arrastado pra fora do restaurante enquanto o mesmo joga um pano em direção a Bram dizendo – Você vai limpar esta sujeira – e parece decidido a impedir a saída de Bram até que ele faça o que tem que ser feito.

Bram começa a limpar seu vomito enquanto algo se meche, parece criar vida própria. O fungo quer Bram, não importa como, tenta entrar em seu nariz, mas ele é mais rápido e pisa no fungo que cresce tentando tomar a todos no restaurante.

As pessoas não são mais elas mesmas, são agora parte do fungo.

Bram corre dali. Sobre trinta e cinco andares sem parar até se sentir seguro. Ele pensa estar a salvo, mas é questão de tempo até o fungo alcança-lo, não hoje, mas em breve. O vocalista dos  Formigas de Mercúrio vai ter muito trabalho pra continuar sendo ele mesmo.

Gustavo Campello

quinta-feira, 12 de junho de 2014

AMORAOBRASIL (SQN)

 

Passei em frente a uma loja em um bairro na minha cidade e pude ver um outdoor enorme que eles colocaram em frente com a bandeira do Brasil com a seguinte mensagem “#AMORAOBRASIL”.  E fiquei a meditar o quanto este patriotismo de merda é o veneno que destrói o país.

O que é AMORAOBRASIL?

AMORAOBRASIL é se empolgar com uma seleção de futebol? Gritar por um gol? Pular enrolado na bandeira enquanto uns poucos ganham milhões enquanto somos feitos de idiotas? Não, me desculpem, mas AMORAOBRASIL não é isto. AMORAOBRASIL é se preocupar com a educação sucateada, tive alunos que não sabiam nem que a Segunda Guerra Mundial existiu em plena 2º colegial. E não, não é culpa do aluno, do professor ou da escola. A culpa principal e do governo e de você que nutre este AMORAOBRASIL que vemos hoje em dia de Copa Mundial nas ruas. É culpa deste AMORAOBRASIL ignorante que infesta a rua. AMORAOBRASIL é se indignar com as condições de hospitais e ver o povo morrendo pelo descaso do bom senso. AMORAOBRASIL é não conseguir torcer pra uma seleção de ego inflado enquanto crianças vivem na rua e passam fome, afinal de contas, o que é este AMORAOBRASIL frente a coisas tão podres que me impedem de ser cego quando vejo este patriotismo de merda? AMORAOBRASIL é no mínimo lembrar para quem você votou para Deputado Estadual e Deputado Federal nas últimas eleições, afinal a culpa é sempre só do presidente, porque precisamos nos preocupar com deputados quando podemos simplesmente só xingar o presidente, não é mesmo? AMORAOBRASIL é nadas contra a corrente e tentar se tornar politizado em um país que tenta te impedir de todas as maneiras que você se politize. AMORAOBRASIL é tentar mudar a realidade em que vivemos, mesmo sabendo o quão isto parece distante.

Então, depois de ponderar a respeito sobre AMORAOBRASIL, eu descobri que o patriota sou eu, não você com esta camisa da seleção no peito cantando o hino que nem um mongoloide.

Gustavo Campello

quarta-feira, 11 de junho de 2014

JONAS (PARTE IV) - LIÇÃO DADA AO PROFETA



Jonas ficou profundamente indignado com isso e, muito irritado, dirigiu ao Senhor-Fungo esta prece: “Ah, Deus-Fungo, era bem isto que eu dizia quando estava ainda no meu andar! É por isso que eu tentei esquivar-me, fugindo para o subterrâneo, porque sabia que sois um Deus clemente e misericordioso, de coração grande, de muita benignidade e compaixão pelos nossos males. Agora, Senhor, toma a minha alma, porque me é melhor a morte que a vida.”

O Senhor-Fungo respondeu-lhe: “(Julgas que) tens razão para te afligires assim?”

Então saiu Jonas do andar e fixou-se ao logo acima no 9377º. Entrou em uma casa desocupada e lá permaneceu, à sombra, esperando para ver o que aconteceria ao andar. O Senhor Deus fez crescer um pé de Cannabis, que se levantou acima de Jonas, para fazer felicidade à sua cabeça e curá-lo de seu mau humor. Jonas alegrou-se grandemente com aquela Cannabis.

Mas, no dia seguinte, ao romper da manhã, mandou Deus-Fungo uma larva que roeu a raiz da Cannabis, e esta secou. Quando o ciclo da manhã começou, Deus-Fungo fez soprar um vento ardente do ventilador de teto, e o aquecedor esquentou sobre a cabeça de Jonas, de forma que o profeta, desfalecido, desejou a morte, dizendo: “Prefiro a morte à vida.”

O Senhor-Fungo disse a Jonas: (Julgas que) fazes bem em te irritares por causa de uma planta?” Jonas respondeu: “Sim, tenho razão de me irar até a morte, eu quero minha maconha!”

“Tiveste compaixão de uma planta, replicou-lhe o Senhor-Fungo, pelo qual nada fizeste, que não fizeste crescer, que nasceu numa noite e numa noite morreu. E então, não hei de ter compaixão do andar 9376, onde há mais de cento e vinte mil seres humanos, que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda, e uma inumerável multidão de sem-corações?...”

Gustavo Campello

terça-feira, 10 de junho de 2014

JONAS (PARTE III) - JONAS NO 9376º ANDAR



A palavra do Senhor foi dirigida pela segunda vez a Jonas nestes termos: “Vai ao 9376º Andar, a grande multidão, e faze-lhe conhecer a mensagem que te ordenei.”

Jonas pôs-se a caminho e foi ao 9376º Andar, segundo a ordem do Senhor. O 9376º Andar era, diante do Deus-Fungo, uma andar como qualquer outro do Edifício: eram precisos três dias para percorrê-lo, como qualquer outro andar. Jonas foi pelo andar durante todo um dia, pregando: “Daqui a quarenta dias o 9376º Andar será destruído pelo 9377º Andar.”

Os moradores do 9376º Andar creram (nesta mensagem) de Deus-Fungo, tentaram descer e subir, mas suas pernas não os obedeciam, então proclamaram um jejum, vestindo-se de papel alumínio desde o maior até o menor. A notícia chegou ao conhecimento do ancião do 9376º Andar; ele levantou-se de sua poltrona no centro do andar, tirou a jaqueta, cobriu-se de papel alumínio e sentou-se sobre as próprias drogas. Em seguida, foi publicado pelo andar, por ordem do ancião e dos mais antigos, este decreto: “Fica proibido aos homens e aos sem-corações, tanto do andar como do subterrâneo, comer o que quer que seja, assim como foder ou usar drogas. Homens e sem-corações se cobrirão de papel alumínio para nos assemelharmos aos duendes mecânicos. Todos clamem ao Deus-Fungo, em alta voz; deixe cada um o seu mau caminho e converta-se da violência que há em suas mãos para a paz de existir como um duende mecânico. Quem sabe, Deus-Fungo se arrependerá, acalmará o ardor de sua cólera e deixará de nos perder!”

Diante de tal atitude, vendo como renunciavam aos seus maus caminhos, Deus-Fungo arrependeu-se do mal que resolvera fazer-lhes, e não o executou.

Gustavo Campello

segunda-feira, 9 de junho de 2014

JONAS (PARTE II) - JONAS NO VENTRE DA LARVA



O Deus-Fungo fez que ali se encontrasse uma grande larva para engolir Jonas, e este esteve três dias e três noites no ventre da larva. Do fundo das entranhas da larva, Jonas fez esta prece ao Senhor, o Deus-Fungo:

"Em minha aflição, invoquei ao Deus-Fungo, e ele ouviu-me.
Do meio da morada dos aprisionados, clamei a vós, e ouvistes minha voz.
Lançastes-me nos trilhos, no meio dos ferros e as faíscas me envolviam.
Todas as vossas travessas e todos os vossos cascalhos passavam sobre mim.
E eu já dizia: fui rejeitado de diante de vossos olhos.
Acaso me será dado ainda rever vosso santo edifício?!
As farpas de madeira encravavam-me toda a pele, o túnel me cercava.
Os aços machucaram-me a cabeça.
Eu tinha descido até os alicerces do edifício, até a terra cujas estacas (se fecharam) sobre mim.
Quando desfalecia a minha esperança, pensei no Deus-Fungo; minha oração chegou a vós, no vosso santo edifício.
Os que servem a ídolos vãos abandonam as fontes das graças.
Eu, porém, oferecerei um sacrifício com cânticos de louvor, e cumprirei o voto que fiz.
Do Deus-Fungo vem a salvação."

Então o Senhor ordenou a larva, e esta vomitou Jonas no 7432º andar.

Gustavo Campello

quinta-feira, 22 de maio de 2014

JONAS (PARTE I) - DESOBEDIÊNCIA DO PROFETA



A palavra do Deus-Fungo foi dirigida a Jonas, filho de Amitai, nestes termos: “Levanta-te, vai ao 9376º andar, no setor da promiscuidade, e profere contra ela os teus oráculos, porque sua iniqüidade chegou até a minha presença.”

Jonas pôs-se a caminho, mas na direção da porta que leva para baixo, para fugir do Deus-Fungo. Desceu ao subterrâneo, onde encontrou um trem que partia para o Mundo Posterior; pagou a passagem e embarcou nele para ir com os demais passageiros para o Mundo Posterior, longe da face do Deus-Fungo.

O Deus-Fungo, porém, fez vir sobre os trilhos uma onda de choque impetuosa e levantou no trilho uma eletricidade tão grande que a locomotiva ameaçava despedaçar-se. Aterrorizados, os viajantes puseram a invocar cada qual o seu deus, e atiraram nos trilhos a carga do trem para aliviarem-no. Entretanto, Jonas tinha ido até o último vagão do trem e, deitando-se ali, dormia profundamente. Veio o maquinista e o despertou: “Eles vão dividir o seu belo crânio, e preenchê-lo cheio de ar. E dizer que você está nos anos oitenta, mas irmão, não se preocupe. Você será atirado sobre qualquer coisa, sobre o nunca do amanhã.”

Em seguida disseram os viajantes entre si: “Vinde e tiremos à sorte para sabermos quem é a causa deste mal”. Lançaram à sorte e esta caiu sobre Jonas. E perguntaram-lhe: “Tu, por quem nos acontecem estes males, diga-nos qual é a tua profissão? De onde vens? A que país e a que raça pertences?” – “Sou do 7432º andar” respondeu ele “Adoro o Deus-Fungo, Senhor dos concretos, que criou o Edifício e todos os andares.”

Ficaram então aqueles homens possuídos de grande temor, e disseram-lhe: “Por que fizeste isto?” Pois tinham compreendido, pela própria declaração de Jonas, que este fugia para escapar à ordem do Deus-Fungo. E disseram-lhe: “Que te havemos de fazer para que os trilhos se acalmem em torno de nós?” Porque os trilhos tornavam-se cada vez mais ameaçadores. “Tomai-me” disse Jonas “e lançai-me às rodas de aço, e os trilhos se acalmarão. Reconheço que sou eu a causa desta terrível tempestade que vos sobreveio.”

Os homens tentavam ver para onde se dirigiam, mas em vão, porque os trilhos se retorciam e davam voltas que antes não existiam. Então invocaram ao Deus-Fungo: “Deus-Fungo”, disseram eles, “não nos façais perecer por causa da vida deste homem, nem nos torneis responsáveis pela vida deste homem que não nos fez mal algum. Vós, ó Deus-Fungo, faz como for do vosso agrado.” E, pegando em Jonas, lançaram-no às faíscas, e a fúria dos trilhos se acalmou. Tomada de profundo sentimento de temor para com o Deus-Fungo, os viajantes ofereceram-lhe um sacrifício, acompanhado das canções do maquinista.

Gustavo Campello