domingo, 26 de março de 2017

ATÉ MAIS, E OBRIGADO PELOS PEIXES!



Não vejo mais sentido em escrever, na verdade não vejo mais sentido em muitas coisas. Cansei de ser uma pessoa desperta em um mundo onde todo mundo está dormindo, quero ser um zumbi, me satisfazer em viver em um presídio com muros invisíveis. Quero abraçar a “normalidade” da apatia, o senso comum dos alienados, assistir Fantástico domingo à noite, votar em qualquer boçal e me sentir aliviado porque posso colocar a culpa de qualquer coisa que dê errado no PT... enfim, quero ser um zumbi da ignorância.

Por isto este é o último texto.

Desisti!

Chega!

Minha vida agora é ir para o trabalho, voltar pra casa e dormir, e no dia seguinte tudo se repete, de novo, de novo e de novo. E estou muito bem assim.

Olho-me todo dia no espelho e me sinto um lixo. Definitivamente desisti do amor, consequentemente quero aproveitar a deixa e desistir de todo o resto. Deixar de viver para apenas existir como a maioria das pessoas neste mundo egoísta e caindo aos pedaços.

Foi péssimo enquanto durou.

Até mais, e obrigado pelos peixes!

Gustavo Campello

segunda-feira, 20 de março de 2017

MAIS UM ST. PATRICK'S DAY!



Venho de uma família ítalo-irlandesa e carrego no sangue toda a bagagem do que vem de bom e de ruim nisso. Cresci no cristianismo (mais especificamente no catolicismo), que significa que damos uma enorme importância para símbolos, tradições, significados e marcos importantes e históricos do mundo e de nossas vidas. Já faz alguns anos que rompi com o cristianismo, mas é inútil pensar que não existem marcas, afinal foram mais de 25 anos dentro dele. Mas por mais que não me considere cristão, nutro um enorme respeito por imagens de Jesus Cristo, Nossa Senhora, São Francisco, pelo Papa e, como não poderia deixar de ser, de São Patrício (Ou Saint Patrick, ou ainda Saint Paddy para os íntimos). Comemorar o St. Patrick’s Day é uma tradição, celebrar a vida, estar com amigos, estar feliz por estar no mundo, algo assim. Nunca trabalhei em um 17 de março, já cheguei a pedir dispensa por motivo religioso, na cara de pau mesmo.

Este ano foi mais um, longe de ser o que mais bebi, nem o melhor de todos, mas foi um dos melhores sim. Não dormi na rua como em 2010, não arrebentei minha cara no asfalto como em 2011, muito menos tomei dezessete garrafas de cerveja como nos velhos tempos. Tomei minha cerveja quando acordei ao som dos The Irish Rovers tocando Finnegan’s Wake (isso é tradição), dei beijo na boca nos primeiros minutos da madrugada do dia 17 (isto não é nem um pouco tradição), estive com diferentes amigos em diferentes bares, ganhei um chapéu verde de leprechaun, tomei cerveja verde com corante vagabundo (isto é quase tradição) e confundi garçons com meu inglês de irlandês arrastado que quase ninguém entende... Ah... e brindei todos os copos com “Sláinte” enquanto uns imbecis diziam “Cheers”.

Não fui à igreja, coisa que sempre fiz, mas no dia seguinte assisti ao novo filme do Scorsese (Silêncio) sobre os jesuítas no Japão. Talvez tenha tocado no meu sangue católico mais do que gostaria, faz parte de uma doutrinação de anos, mas como disse o Logan neste último filme: "Não seja aquilo que fizeram de você". Eu tento, mas existem cicatrizes que não dá pra esconder, mas acho que venho fazendo um bom trabalho.

Final de noite com a galera ainda comi uma porção de língua ao molho, nada melhor com uma cerveja. Descobri literalmente que meu inglês fica muito melhor quando estou bêbado e que devia fazer exatamente um ano que não mijava na rua. É isso aí, mais um ano, mais um St. Patrick e espero que ainda venham muitos.

Dedico este texto aos irlandeses que me inspiraram de alguma forma: James Joyce, Neil Jordan, Garth Ennis, Oscar Wilde, Bram Stoker, Sinéad O’Connor, Shane McGowan, Bono Vox, Frank McCourt, Michael Collins, Stephen Rea, Gabriel Byrne, Jim Sheridan, Pierce Brosnan, Enya e é claro que não podia faltar o Banshee dos X-Men.

Sláinte!

Gustavo Campello

quarta-feira, 15 de março de 2017

O HOMEM, A MOSCA E OS ÁTOMOS DE UM ELEFANTE



Há moscas somente no subterrâneo, pois no Edifício não há nenhuma outra forma de vida que não seja humana. Animais são vistos e reconhecidos somente por causa dos sonhos com o Mundo Posterior.

Em um sonho um homem está sentado no banheiro cagando enquanto olha uma mosca no azulejo ao lado do seu dedão do pé. E ele se sente igual a mosca. Não há diferença nenhuma entre o homem sentado na privada e aquela mosca ao lado do seu dedão, para o universo eles são tão pequenos e insignificantes que poderiam ser um só. Na ordem das coisas não alteram nada. São nada. Pó. Ínfimos átomos de um elefante.

Como processar este pensamento sem nunca ter visto um elefante? Como mensurar o sonho vivendo no Edifício? Como entender o azul do céu olhando para o concreto? Como entender o cheiro do mato após uma chuva vivendo em um ambiente onde o ar é parado, impregnado pelo cheiro de poeira e sem vento? Ferzan entende, mas de nada adianta para ele entender estas coisas, pois sente medo de fazer algo a respeito e a vontade de se movimentar em direção a algo lhe deixa com a alma morta.

Tem horas que tem vontade de arrancar o coração e ir para o obscuro subterrâneo viver com outros que devem ter sentido algo como ele. Sente que não há fuga, sente que não há o que fazer, quando tudo o que queria era sentir o vento lhe batendo na cara, o cheiro de terra molhada entrando nas narinas. Livre!

Liberdade não é seguir sonhos, mas dar valor para o que se tem. Ferzan não tem nada. Ferzan sabe demais em um mundo controlado por Duendes Mecânicos. Tem medo. Vive fingindo ser quem não é. Queria conhecer outros como ele.

Já tentou morrer como as pessoas do Mundo Posterior, mas sempre acorda intacto no dia seguinte. Parou de tentar e aceitou sua situação após arrancar o braço, desmaiou, no dia seguinte estava intacto.

Malditos Duendes Mecânicos!

Não deixam ninguém morrer, não deixam ninguém viver. Pobre Ferzan, mal sabe ele que por aqui é assim também.

Gustavo Campello

sexta-feira, 10 de março de 2017

TRÊS AMORES: HÁ 6⅓ ANOS




“Porque eu sei como é quando pessoas
que ama não acreditam em você,
Quando te deixam ir embora.”

Meu terceiro amor é aquela velha história do aprender que você não consegue fazer uma pessoa te amar, não importa quanto tempo passe, não importa quanto se esforce, não importa o quanto você seja completamente apaixonado por ela... se ela não te ama, ela não te ama e é isto. Por mais triste que seja, por mais dolorido que seja, quanto antes você assumir isto pra si mesmo, menos você vai se foder... e eu me fodi bem bonito.

Ela foi a pessoa com quem passei mais tempo e nunca me cansei de olhar pra ela, era aquela certeza de que com ela eu ficaria pro resto da vida, mas a vida não é uma via de mão única. Ela se cansava constantemente de olhar pra mim e não me enxergava em nenhum momento como seu príncipe encantado.

Ela era uma espécie de Humpty Dumpty versão feminina, que passou os 6⅓ Anos em cima do muro com medo de quebrar. Pra falar a verdade ela está lá até agora, em cima do muro, eu só cansei de ficar lá embaixo gritando “Pode pular! Eu te seguro! Você não vai quebrar!”, ou talvez não, talvez ela simplesmente tenha caído e quebrado, mas pro outro lado do muro, e eu fiquei deste lado tentando entender toda a bagunça.

Sinto falta dela ao meu lado na cama, sinto falta do seu cheiro, sinto falta do seu sorriso, sinto falta do sexo, sinto falta de andar de mãos dadas, e posso ficar nessa de ficar falando do que sinto falta por um bom tempo, mas olhando pra trás, o que sinto mais falta é de me sentir amado e infelizmente não posso dizer que me senti assim nos últimos 6⅓ Anos.

Estou tentando apagar os resquícios dela, tentando esquecer, toda semana algo dela vai pro lixo, pro abismo do esquecimento, desde elásticos de cabelo a fotos. Apaguei nossos vídeos picantes, fotos digitalizadas, queimei pijamas, só sobrou uma aranha de arame que eu já amassei toda e uma foto rasgada. Logo logo não terá mais nada, vazio, assim como me sinto em uma vã tentativa de me libertar de memórias fantasmas que me assombram todas as noites me impedindo de dormir.

Então tudo acabou como um meteoro que devasta tudo e ficou um gosto amargo na boca, um sabor que fez eu me sentir usado, como uma boneca velha jogada no lixo depois que a garotinha cresceu. É como enxergar todo um esforço de uma vida não reconhecida, mas é a vida, ela é cruel e não poupa ninguém. Não a culpo por não me amar, por não ter paciência pra relacionamentos, nesta altura da vida eu tinha que ter sido mais esperto, tinha que ter percebido os sinais. Não é o amor que é cego, nós é que ficamos cegos com ele, o amor é só um idiota que fica na frente atrapalhando a visão.

Só quero poder amar de novo, um amor que seja correspondido, seguir em frente, amar e ser amado. Ainda não desisti, portanto que venha o quarto e que seja o último.

Gustavo Campello
Texto em Itálico: Extraído da Série "Star Wars: Rebels" (Capítulo 14 - 3ªTemporada/2017) de Dave Filoni

domingo, 5 de março de 2017

RADIOHEAD



O Kraftwerk havia saído do palco, continuando a narração do dia 22 de março de 2009, a expectativa era para quando o Radiohead subisse e fizesse o show tão esperado. Parece que faz tão pouco tempo, mas na época as pessoas ainda usavam Orkut.

As pessoas sempre acharam Vitor parecido com o Thom Yorke, ele não se achava parecido, mas eram várias as pessoas que diziam “Nossa! Você parece aquele cantor do Radiohead”. Ele até tinha um olho maior que o outro, mas não tão evidente. Não se achava tão esquisito assim... mas beleza, melhor parecer o vocalista do Radiohead que o Lobão.

- Na Argentina os caras encerraram com Creep – disse Vitor se referindo ao show anterior da banda, fazia dezessete anos que eles não tocavam esta música.

- Sim, eu vi isso, faz anos que os caras não tocam... encerraram o show, acho que não vão ficar devendo essa pra gente. – disse Marcel

- Mas vão tocar mais músicas do Kid A, acho – completou Eurico – afinal, ainda hoje é o álbum mais vendido dos caras.

Era a turnê do In Rainbows, um excelente álbum, que Vitor andava ouvindo bastante, enquanto esperava Beatriz nas aulas de natação.

Quando o show começou já veio com 2 pés no peito com a barulhenta 15 Step, a música que abria o álbum da turnê, mas o show foi bem equilibrado, tocaram músicas de todos os álbuns, mas quase nada do Hail To The Thief (uma pena, pois Vitor adorava este álbum, mas não dava pra agradar todo mundo).

Mas o que dizer de um show do Radiohead? É tudo muito perfeito, parece um relógio atômico em ação. Tudo preciso e hipnótico. Os ataques epiléticos do Thom Yorke é só um algo a mais no meio de um baita show. Não tem muito como expressar, é só vendo pra entender, estando lá sentindo o ritmo, a música, o transe.

Quando chegou ao fim a música que representava toda a geração de que Vitor fez parte foi tocada ao vivo depois de dezessete anos, e depois de 2009 ela só foi tocada de novo sete anos depois: Creep.

But I'm a creep
I'm a weirdo
What the hell am I doing here?
I don't belong here

Vitor era o chato, o estranho e não pertencia ao mundo que fazia parte. Quantos ali não eram como ele? Quantos ali não entendiam este sentimento? Marcel estava indo embora para o mundo “normal”: casa, família, filhos. Era o último show que veriam juntos... Vitor sabia disso... Marcel sabia disso... e assim foi.

Gustavo Campello

quarta-feira, 1 de março de 2017

TRÊS AMORES: HÁ 10 ANOS



"- Que tal arte?
- Arte? Legal. Pode falar.
- Fale você.
- Não entendo nada de arte."

Meu segundo amor foi a clássica história de conhecer a pessoa certa no momento errado da minha vida.

Marcou minha vida mais do que gosto de admitir, moldou minha consciência política, minha consciência artística e foi a maior responsável deste blog existir, quem me incentivou a escrever, que serviu de musa inspiradora em muitos textos e que ainda marca presença em mais coisas da minha vida do que minha consciência percebe.

Quando nos conhecemos estávamos quebrados por dentro, um serviu de muleta para o outro. Tínhamos cicatrizes que tentávamos ignorar. Ela era muito mais madura que eu, mas em alguns momentos parecia algum animalzinho assustado e machucado. Eu tentava cuidar dela enquanto fingia cuidar de mim.

Nem lembro quando nos conhecemos, faz muito tempo, no aniversário de um amigo em comum. Você namorando outro cara e eu, o esquisitinho que não pegava ninguém. Não podíamos imaginar que anos mais tarde teríamos uma história juntos.

Você será minha eterna Mrs. Robinson.

Você estará para sempre na minha memória quando escutar Sound Of Silence.

Não tem como olhar para dentro de mim e não ver um pedacinho seu.

Nossas vidas seguiram rumos diferentes, eu te machuquei mais do que gostaria de admitir (Nossa, como estou repetitivo hoje). Já pedi desculpas e obrigado, mas saiba que apesar de nosso tempo ter durado menos do que meus outros dois amores, o tempo que estivemos juntos foram os mais felizes.

No meu emprego novo tem uma funcionária que é igualzinha a você, inclusive tem o seu nome, tudo parece kármico na minha vida. Hoje você está namorando e parece feliz, cruzei com você não faz muito tempo, você não me viu. Se desejo algo de bom para meus amores, pra você eu desejo a melhor parte, porque de todas, você é a que merece mais.

Gustavo Campello
Texto em Itálico: Extraído do Filme "A Primeira Noite de um Homem" (1967) de Mike Nichols

sábado, 25 de fevereiro de 2017

UM MUNDO ONDE EXISTE O TRABALHO



Tariq sempre tem o mesmo sonho. Ele sonha que está trabalhando, mas não tem ideia do que seja tal coisa. O que é o trabalho? Ele passa as oito horas de sono sonhando estar em frente a um computador, fazendo coisas que não entende, para ganhar um pedaço de papel e comprar coisas que não entende ou entende e não entende porque precisa do papel para adquiri-las.

No Edifício não existe o trabalho.

Tabelas de Excel, café, uma barriga saliente que não reconhece como a dele, uma caneca com a ilustração de um homem com uma espada luminosa em cima de sua mesa. Ele não entende porque sonha todos os dias com o mesmo ser do Mundo Posterior, porque não consegue se desligar dele como todas as pessoas normais do Edifício?

Tariq acorda cansado depois de uma jornada de “trabalho”, tenta se manter acordado pra não ter que encarar o “trabalho”. Tariq usa drogas verdes, roxas e vermelhas. Ingere as drogas com cerveja vagabunda, tenta ficar acordado. Talvez devesse tentar aquela coisa azul que estão distribuindo por aí.

Pinta os olhos com maquiagem preta pra esconder as olheiras, mas chega uma hora que precisa dormir, que precisa “trabalhar”, que precisa encarar chefe, cafeína, computadores, planilhas, cobranças, metas, clientes gritando e piadas que não consegue entender.

Toca a bateria cada vez com mais raiva, tenta extravasar, tenta fugir, tenta acordar da realidade do Edifício.

Será que é obra dos Duendes Mecânicos? Será que os putos tem algum dedo robótico cheio de circuitos nisso? Tariq está perdendo cada vez mais a sanidade, está cada vez mais frustrado pelas frustrações do Mundo Posterior que não deveriam atingi-lo ali. Tão Longe. No Edifício.

Tariq está apaixonado por uma garota de seus sonhos, uma garota que nem vive na mesma realidade que ele. Morena. Trabalha na baia ao lado. Queria que o puto levantasse sua barriga e fosse lá conversar com ela, mas apenas pode observá-la passar, de tempos em tempos. Tariq quer gritar enquanto sonha! Quer se estapear para acordar. Mas dorme, sempre as oito horas e só acorda quando bate o ponto para ir embora do serviço.

Gustavo Campello

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

TRÊS AMORES: HÁ 15 ANOS



"Oh, meu amigo desses anos dourados.
Me ajude a deixá-lo!"

Hoje, 20 de Fevereiro de 2017, faz 15 anos que meus olhos bateram nela pela primeira vez. Ela tinha só 17 anos, eu com meus 21, me enganou que usava óculos e me perdi completamente em um caldeirão de sentimentos que não compreendo até hoje. Tivemos uma história de anos depois disso. Uma história que acabou, mas que continua muito importante na minha vida.

Lembro-me de seu sorriso, de seus períodos depressivos e de seus momentos Beatrix Kiddo onde teria me fatiado em dois com uma Hattori Hanzō se tivesse a chance.

Nos conhecemos na faculdade, era 20/02/2002 às 20:02hs... um encontro cabalístico, parecia que era destino, já fiz planos pra vida toda, planejando casamento, casa de campo, bodas de prata e o caralho à quatro.

Tempos depois nossas vidas tomaram rumos divergentes, foi um baque, sangrei como jamais havia sangrado, chorei como jamais havia chorado e sofri como jamais havia sofrido. Mas as cicatrizes invisíveis ficaram, as marcas eram eternas e para sempre, continuam até hoje no meu corpo, no meu cérebro, na minha alma.

Não tem como ouvir U2 sem lembrar dela.

Não tem como assistir uma comédia inglesa sem lembrar dela.

Não tem como olhar pra trás e não olhar pra ela.

Nem tudo era perfeito, afinal ela tinha um chulé horrível, mas vamos deixar as coisas ruins no passado, né? As brigas e os ciúmes doentios.

Foi meu primeiro amor, a primeira mulher que fiz amor, que dormi ao lado e que significou o infinito e além, mas não foi a única que tocou minha alma desta maneira, apenas a primeira.

Engraçado que no 15º aniversário eu ainda me lembre de você, mesmo estando tão longe, nesses alpes, com outro e que já não signifiquemos o que significamos um para o outro.

No meu emprego novo a primeira cliente que atendi tinha o seu nome, parecia algo kármico, mas era apenas o universo, agindo como sempre age de maneira caótica para me atingir.

Faz tempo que não nos falamos, mas onde estiver, hoje, pensei em você e espero que esteja feliz, minha eterna companheira, minha eterna amiga e uma das cicatrizes no meu coração, a primeira.

Gustavo Campello
Texto em Itálico: Extraído do Filme "Além da Linha Vermelha" (1998) de Terrence Malick

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

KRAFTWERK



Marcel estava casado e esperando sua primeira filha que iria nascer em breve, portanto sua esposa não poderia ir no show do Radiohead, tinha um ingresso sobrando.

- Fala, Marcel! – Vitor atendia o telefone após olhar no identificador de chamadas.

- Quer ir no show do Radiohead?

- Querer não é poder!

- Agora é, to com um ingresso sobrando!

Era uma espécie de despedida de solteiro do amigo de longa data, Vitor sabia que provavelmente jamais iriam a um show de novo. Marcel estava adentrando na vida de casado, com outras responsabilidades, de ser marido, pai e mais um monte de coisas que essas coisas acarretam. Vitor estava orgulhoso do amigo.

Foram em uma Van fretada naquele 22 de março de 2009, Vitor foi o último a chegar, atrasou porque foi almoçar com a namorada Beatriz. Estavam indo Vitor, Marcel e o irmão mais novo de Marcel, Eurico. Vitor se lembrava deste último como um pivetinho que curtiam zoar, mas já era um homem feito e iria acabar casando bem antes de Vitor.

Ficaram em um boteco algumas horas antes de entrar no Jockey Club, onde seria o show, beberam cerveja e colocaram o papo em dia. Marcel estava morando em Curitiba, bem longe de Vitor e sempre se viam esporadicamente agora.

A banda Los Hermanos abriu ao show e uma multidão gritava “Pedófilo!!!!”. Depois foi a vez do Kraftwerk entrar e aquilo não era mais um show, era uma aula de história da música eletrônica.

Começaram com The Man-Machine e durante todo o show, eles esqueceram completamente que era um show do Radiohead. Se a banda principal não pudesse se apresentar, aqueles velhacos imitando robôs já valia o ingresso. O show não foi curtinho, tocaram 13 músicas no total, passando pelos grandes sucessos da banda como Tour de France e Radioactivity, mas foi na primeira música do Bis que Vitor foi a loucura quando tocaram The Robots.

We're functioning automatic
And we are dancing mechanic
We are the robots
We are the robots
We are the robots
We are the robots

Era assim que Vitor andava vendo a humanidade, todos ligados no automático, todos como robôs sem emoções, sem sentimentos, frios como gelo.

Tocaram duas músicas depois, mas a mente de Vitor já divagava, olhando todas as pessoas a sua volta como autômatos, como seres mecânicos que não conseguiam pensar por si só. Será que estava sozinho no mundo?

Até hoje a resposta que guarda dentro de si é “sim”.

Gustavo Campello

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O CULTO À SERPENTE



“A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha formado. Ela disse à mulher: “É verdade que Deus  vos proibiu comer do fruto de toda árvore do jardim?”. A mulher respondeu-lhe: “Podemos comer do fruto das árvores do jardim. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: Vós não comereis dele, nem o tocareis, para que não morrais.” – “Oh, não! – tornou a serpente – vós não morrereis! Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal.””

Esperta a serpente, ludibriou os homens que era e ainda são idiotas, que são ingênuos perto dos joguetes de seres muito superiores a eles. Depois da ludibriação da serpente a humanidade sempre esteve em apuros. Eu não acredito em Adão e Eva, como não acredito em nenhuma frase do livro de Gênese, mas esqueçamos o que eu acredito ou deixo de acreditar, deixemos de lado, por um momento, no que acreditamos ou deixamos de acreditar e levemos o livro de Gênese a sério, vamos supor que ele é real, que tudo aconteceu exatamente como está ali, mesmo que não faça sentido nenhum.

Então se tudo for verdade a serpente atuou lá em Gênese e ficou quieta até então? Nunca mais tentou ludibriar a humanidade? Ficou de boa na canoa?

É o ano de 382 e o Papa Dâmaso I é o único homem acordado na madrugada daquele dia durante o Concílio de Roma, ele olha para sua mesa onde monta uma primeira lista dos livros que a igreja considera santos e que entrará futuramente em um livro que será chamado de Bíblia.

- Confuso? – diz a serpente de maneira safa se aproximando do Papa.

- É um trabalho cansativo – o Papa olha para a serpente, que conhece faz tempo, um ser que sempre lhe ajudou e que toma por um anjo – mas acredito que Deus irá me ajudar através de ti não é mesmo?

- Não lhe ajudei em nome Dele sempre? – a serpente sorri.

Mal sabe o Papa que esta mesma serpente ajudou Flavius Valerius Constantinus durante o Concílio de Nicéia há 57 anos atrás e que desde então vinha formando a Bíblia conforme seus planos. Já vinha há anos preparando também Jerônimo de Estridão, um sacerdote que serviria a seus propósitos, para traduzir os pergaminhos do grego e hebraico ao latim para popularizar ainda mais o “livro santo” que tanto trabalhara para produzir. Seus planos eram metódicos, sempre pensando no longo prazo, pra quem tem milhares de anos de vida e mais milhares de anos por vir, era um trabalho relativamente simples.

A Bíblia foi criada e a religião deturpada: guerras, fogueiras, torturas, mais guerras, estupros e inúmeras atrocidades foram e são cometidas até hoje em nome de Deus e de Cristo. Tudo usando a Bíblia como propósito. Ninguém liga se o que está escrito lá faz sentido ou não, ninguém liga se Jesus disse que era pra amar o pecador, o foco é no que pode e não se pode fazer, o foco está sempre no que a serpente reescreveu. Ninguém liga se Jesus tratava as mulheres como iguais, o foco é no texto reescrito pela serpente onde a mulher deve ser submissa. Ninguém liga pras contradições, cada um pega o que bem entende ali... Se a palavra fosse única, haveria apenas uma religião cristã e não um monte, cada uma com uma visão diferente da outra.

Sem saber, os religiosos continuam em sua fé, seguindo o Culto à serpente, seguindo preceitos que qualquer um que questionasse o que há de contradição no “livro santo” chegaria à verdade inabalável que ninguém quer enxergar. A iluminação está ao alcance de todos, mas a humanidade continua seguindo a serpente. Até quando?

Gustavo Campello
Texto em Itálico: Gênese - Capítulo 3, Versículos 1 ao 5

domingo, 5 de fevereiro de 2017

O INIMIGO DA MÚSICA



Sem nada para oferecer, o Edifício é como um dia de execução, o que rege esse mundo é tudo o que um corpo tem a oferecer.

Eu não sei quem sou, pois nada é algo, pois tudo o que eu sou é a única coisa que os Duendes Mecânicos não conseguem ludibriar, mas eles fazem como em aulas de física que algumas pessoas queriam esquecer, pois fazem cada vez mais sentido. Meu único problema é a bebida, pois é quando estou constantemente na cabeça dos Duendes Mecânicos.

Por sentido nenhum jamais irei sorrir, pois me deixam cada vez mais louco esses Duendes, mas não existe o quem somos e fumando um procuro sentido apenas em leis relativas. O fluxo dos Duendes Mecânicos é uma tremenda piada quando se sabe das coisas. Morrendo um pouco eu continuo bebendo, o que alivia um pouco, mas eu queria poder sentir que essa batida minha não é uma piada.

Fazer as coisas direito é algo que não deixou aquilo em que acredito, Bram nem imagina. Fazem eu ser outra pessoa, estão me mudando esses filhos da puta. Saber disso já é algo que sei faz tempo. O horror é insuportável. Nem meu orgulho próprio criado por cientistas é um ritmo que pode mudar. Não queria, mas nem isso faço, viver no Subterrâneo como um herói, isso é algo realmente pra quem sonha, porque aquilo lá embaixo, a todo momento, existe pensamento e um sentido aparente. Nossos pensamento, em algum momento ou a todo momento, irão sumir. Seria interessante para que eu pudesse seguir em frente.

Você pode ser eu, pois os Duendes Mecânicos seguem leis absolutas em sua casa, não tenho culpa por ser estúpido. Eles são os vilões. Bêbado e morrendo como um gambá com um cigarro no cu só de sacanagem. Mosquitos que picam escrevem sobre amor, sobre ter câncer na minha pele, meu cérebro cheio de marcas porque a Damis foi embora.

Guerra e paz, é isto que sou, mas tentam roubar isso de mim, ou não. A qualquer momento podemos, em todas as noites, sermos dissecados. Todos os dias, em todos os dias mesmo, o outro sem pensamento estará dentro de nós mesmos. Me foderam o tempo todo, pois não querem dar pra mim essas coisas, podiam pelo menos me oferecer um amor, mas então me vejo neste mundo o tempo todo lutando contra algo que se chama música.

Gustavo Campello

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

DEUSES ADORAM PESCAR



A vida veio do mar, mas o que ninguém sabe é que o universo é o mar dos deuses, as coisas vistas lá de cima fazem sentido, já que pra eles a vida veio do universo. Então vamos ficar nesta comparação, o universo é o mar dos caras grandões lá de cima.

Mas o que ninguém sequer imagina, é que como aqui no nosso planeta, lá entre eles também existem vários torneios universais de pescaria. Jesus é o cara, campeão inúmeras vezes, mesmo que venha perdendo alguns campeonatos recentemente pra Alá e tal. Pelo universo há enormes peixes e os planetas criados pelos deuses nada mais são do que iscas, é isso mesmo, você vive em uma isca de peixe e nada mais. Este ano Jesus acredita que vai conseguir pegar a Moby Dick do universo, já que a nossa galáxia é uma região nova no pedaço e logo logo vai chegar os peixões por aqui.

- Porra, este planetinha azul mequetrefe fede, tu acha que vai pegar alguma coisa com ele? – diz Alá tirando sarro.

- Zoa não! Zoa não! Meu pai que fez!

- Alpha Centauri é muito mais esquema, muito mais organizado!

- Acho que a Terra é mais esquema porque tem o fator surpresa, não tem nada tão esquisito como esses bichinhos que vivem ali.

- Dá nojo, os peixes vão fugir, porra!

- Vou arriscar!

- Tu perdeu os últimos dois campeonatos, Jesus, por causa dessa confiança no teu pai! Te situa!

- Mano, não zoa papai, ganhei muito campeonato com a ajuda dele!

- Perdeu a mão, perdeu a mão!

Zeus anuncia o começo do campeonato e a pescaria começa, cada deus escolhe sua isca e é uma zona. Jesus fica com a Terra, Alá com Alpha Centauri, Ganesh fica com Proxima b, Katrrogarrax fica com Nibiru e os outros vários deuses de fora do universo pegam as suas.

O peixão finalmente aparece entrando no novo “oceano”, os deuses ficam eufóricos.

Enquanto isso em um centro de pesquisas espaciais na Terra:

- Puta que pariu! Que porra é aquela?

E morreu!

Jesus ganhou mais um campeonato.

Gustavo Campello

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

PLACEBO



Era o dia 27 de Abril de 2005, acontecia um evento histórico na cidade em que Vitor morava, o Placebo iria tocar e pela primeira vez não precisaria ir até São Paulo para assistir a um show. Vitor não era mais o cara que havia ido no Rock in Rio há quatro anos atrás. Estava casado com Elize e era pai de uma garotinha, mas o show tão próximo de onde morava não podia ser desperdiçado, Elize concordou que ambos iriam. Este foi o primeiro e único show em que os dois foram juntos.

- Olha essas meninas – disse Elize ao chegar no local – todas alternativas, do jeito que você gosta.

- Eu gosto de você – disse Vitor tentando burlar a insegurança da mulher, ele ainda não estava acostumado com a insegurança constante que paira sobre todas as mulheres que conheceu.

Alguns amigos dele estavam por lá, mas não conseguiu encontrar ninguém, Jorge ligou no seu celular, mas não conseguiram se achar. O show começou com a banda tocando Taste In Man.

Depois da terceira música, uma das preferidas de Vitor (Every You Every Me), Elize começou a reclamar que estava com dor de cabeça. “Qual a novidade?” Vitor pensou, ela sempre estava com dor de cabeça. Praticamente perderam a música Protect Me From What I Want para achar um lugar pra sentar, tinha uns lugares de camarote em um andar acima, onde podiam ficar sentados e tinham uma bela visão do palco.

Quando tocaram Without You I’m Nothing Vitor pulou da cadeira:

I'm unclean, a libertine
And every time you vent your spleen
I seem to lose the power of speech
You're slipping slowly from my reach
You grow me like an evergreen
You've never seen the lonely me at all

Vitor se preocupava com a dor de cabeça de Elize, mas ao mesmo tempo sentia raiva por estar tão distante da multidão que pulava na pista, gostava daquela sensação, das cotoveladas, do suor se misturando, das vozes cantando juntas... ele pertencia a pista, ao amontoado de gente.

Elize estava emburrada, e o emburramento de Elize sempre afetava Vitor, talvez por isso que não deram certo, talvez se ele não ficasse tão afetado não haveria problema, mas ela ficava cada vez pior quanto mais afetado ele ficava e era um ciclo infinito pronto para explodir.

Foram embora discutindo aquele dia, por causa das meninas bonitas com botas e saias e que tinham um jeito de alternativas que Vitor não ligava à mínima, pois só tinha olhos para Elize.

Gustavo Campello

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O COPO NÃO CONTINUA NA JANELA E ESTÁ CHEIO DE GIN



Recentemente li uma carta postada na internet que foi das coisas mais estúpidas que já vi na vida, chamava “Quero Estar Solteira, mas Com Você” e reflete exatamente a geração de hoje, daí li outro texto que chamava “Estamos Formando uma Geração de Egoístas, Egocêntricos, Alienados e Inconsequentes” que vou usar como resposta pra carta.

Tinha uma namorada, é... tinha, no verbo passado, ela picou a mula, foi-se embora, se mandou. Porque? Na minha visão ela se mandou porque a coisa tava ficando séria... é... casamento, responsabilidades, comprometimento... Quem quer isso nos dias de hoje? Seis anos de relacionamento não é brincadeira, pelo menos não pra mim aparentemente, mas pra algumas pessoas é sim. Ela queria estar comigo e se sentir solteira, mas pera lá, comigo não, isso não funciona.

Ou você está solteiro ou você está comprometido. Ponto. Estar com alguém é se comprometer, é se entregar, é amar e ser amado, é compartilhar, é querer estar com esta pessoa, é querer que ela esteja com você, que faça parte da sua vida e não simplesmente ter alguém pra trepar e querer sair com seus amigos sozinho. Eu queria sair com meus amigos com ela lá, queria que ela participasse, queria rir com ela, queria beber com ela, queria sair com ela... enfim, mas a geração egoísta, egocêntrica, alienada e inconsequente não pensa assim, essa geração pensa que ser solteira e estar com você é lindo, afinal esta carta viralizou em toda a internet e você deve ter lido ela em algum momento.

Eu queria casar com esta namorada, queria envelhecer com ela, queria ser feliz e passar por dificuldades, queria vê-la chorar e vê-la sorrir, queria poder estender minha mão quando ela precisasse e queria que ela fizesse o mesmo, mas não foi assim, a gente nem sempre pode ter aquilo que você quer (como já dizia o Mick Jagger naquela música dos Stones).

A vida é feita de escolhas, a gente toma uma decisão e segue em frente, toda ação tem uma reação e precisamos saber lidar com elas. Um relacionamento é uma decisão, quando a tomamos fechamos a porta pra várias outras coisas, não dá pra se ter tudo na vida e é preciso ter consciência disso. Hoje as opções são tantas que as pessoas nem sequer sabem tomar uma decisão. Querem tudo e querem agora.

Enquanto essa geração não aprender a tomar decisões tudo será fútil, tudo será sem sentido, tudo será como é... vazio. Pelo menos pra mim é assim e invejo quem não tem essa percepção da realidade e acha linda a carta do começo do texto.

Estou tentando seguir em frente, esquecer o passado, rasgar lembranças como ela rasgou meu coração (Sim, eu posso soar piegas, tenho todo o direito), sair com amigos, ficar bêbado, sair com mulheres de reputação duvidosa e tudo o que a solteirisse possa proporcionar. Tenho o direito. Enquanto meu coração continua a se recosturar o copo de gin continua sempre cheio e parei de ser trouxa que nem o Jack Lemmon.

Gustavo Campello

domingo, 15 de janeiro de 2017

SOLIDÃO DA MADRUGADA NA PISCINA



Já passam das duas horas da manhã, meu corpo boia na piscina que funciona como um analgésico ao horrível calor que faz nesses dias de verão. Uma garrafa de vinho boia vazia junto ao meu corpo, meu cachorro corre em volta da borda com seu medo constante de que eu me afogue, não foram poucas as vezes que ele pulou achando que estava realizando um resgate heroico. Olho para o céu estrelado, mesmo bêbado consigo localizar Alpha Centauri, minha casa, pra onde sonho um dia poder voltar.

Esta piscina de amores, temores e tantas histórias.

Lembro-me quando meu avô escorregou e bateu com a cabeça na borda, sua cabeça abriu, o sangue jorrava e se misturava na água, tentava estancar a corrente do líquido vital em vão, o sangue melado escorria pelos meus dedos e ele tentava a todo custo me acalmar, fingindo que não havia sido nada. Levou vários pontos, mas durante muito tempo a única imagem que tinha quando ia nadar era da água ficando vermelha.

Ainda consigo ver ela na borda conversando comigo, eu declarei meu amor ali e ela sorriu, e consigo lembrar como se fosse ontem, do peito batendo mais forte, dos olhos dela brilhando, da energia que transcorria pelo meu ser de que tudo iria ficar bem, de que daríamos um jeito no que viesse pela frente, mas ela me abandonou mais vezes do que posso contar.

Uma vez posso jurar que deitado assim como estou agora pude ver um veículo de última geração recém fabricado em Alpha Centauri passando muito próximo, foi muito rápido, mas por um minuto achei que finalmente haviam me achado, que finalmente iam me tirar daqui, mas eles nem me viram, ou se viram, nem se preocuparam em me tirar daqui.

Sozinho, boiando, mas querendo afundar.

Gustavo Campello

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O MAQUINISTA ESTÁ MORTO



Em Memória de David Bowie

Desapareceu para achar longamente um novo maquinista. O antigo está morto, neste momento ele está flutuando de um jeito muito peculiar, e se as pessoas pudessem olhar por trás das paredes do Edifício, veriam que as estrelas estão bem diferentes hoje. Mas o novo maquinista há de surgir, enquanto isso não há viagens para fora do Edifício.

Vão de ferro até o Deus Fungo, pois o ferro é o caminho, ele tudo queima, o único medo do Deus-Fungo é o ferro, mas enquanto não houver um novo maquinista canhoto que vá longe demais o ferro será a estrada da enganação. A maneira Dele escapar. Mas Dele ninguém escapa.

Todos foram aos subterrâneos, que apesar do tamanho, foi suficiente para o adeus. Lá estavam os Duendes Mecânicos, mas não foram ao mesmo tempo, mas dando gritos para o nada que o mataram, perseguido por pequenas rodas verdes. 

No Mundo Poderoso do Fígado ele está, mas não é mais desperto, pois o abismo da morte era realmente fantástico.

Falam dele, aguardam as drogas mutiladas lá da rua. A droga azul. Fuga inevitável da manipulação dos Duendes Mecânicos. Fuga do controle do Deus-Fungo. Sem o maquinista só resta a droga azul, nada mais.

Cansado de sua missão, morreu chegando ao seu parecer sobre o Edifício. Lugar dos vivos que não vivem, lugar onde a morte não consegue chegar. Mas o parecer final apenas ao maquinista pertence.

Ele, o metrô, veio. Ele desapareceu por um longo tempo para achar um novo maquinista, mas ele voltou livre, como um pássaro azul e com cicatrizes que não podiam ser vistas.

Gustavo Campello

domingo, 8 de janeiro de 2017

BOWIE: LUTO E CELEBRAÇÃO



Há exatamente um ano atrás estava sendo lançado o álbum Blackstar do Bowie, no dia do aniversário de 69 anos do artista. Ele que foi o meu maior ídolo, a minha maior fonte de inspiração em muitos aspectos iria falecer dois dias depois dando um susto em todos os seus fãs. Parece bobagem, mas fiquei em choque, decidi entrar em um luto e só escrever sobre o impacto disso tudo um ano depois, fiquei em silêncio enquanto a maioria de seus fãs escreviam sobre o assunto.

As crônicas da série Vagando no Espaço de Divagações foram obviamente inspiradas no Major Tom, criado por David Bowie no álbum Space Oddity, o cantor ainda é um personagem chave de enorme importância nas crônicas da série DuendesMecânicos, que voltará a aparecer por aqui. As referências dele no meu trabalho não param por aí, mas essas são as mais importantes que me vem na cabeça agora. Ah, teve um texto que também lembrei agora: Bullying.

2016 foi um ano difícil, por vários motivos, vi morrer meus dois ídolos vivos da música (David Bowie e Leonard Cohen), estudei que nem um louco pra um concurso que não passei, quebrei a coluna em um acidente de carro e vi meu relacionamento amoroso de seis anos ser jogado na lata do lixo pela mulher que eu amo... tá bom ou querem mais? Enfim, apesar de várias coisas que possam parecer piores do que a morte de um artista que eu nem conhecia, a morte do Bowie foi sim fundamental este ano para que eu encarasse as mudanças que o ano trouxe. Bowie era conhecido como o “Camaleão”, porque ele sabia se reinventar, ele sabia seguir em frente, sabia se transformar, deixar o passado onde ele pertence, ir adiante independente do que o futuro traria. Tive que dar passos que nunca dei, fazer coisas que nunca fiz, encarar mudanças, trabalhei até como serralheiro e apesar das dores insuportáveis nas costas, no coração e sei lá mais onde eu estou definitivamente tentando, tropeçando muito, mas tentando.

Então é isso, o luto chega ao fim, o blog volta a toda, mas sem saber direito ainda o que escrever sobre o que sinto sobre a morte do Bowie, acho que ele me ajudou até na morte, pela maneira que encarou tudo, pela maneira como terminou tudo, fazendo arte até na morte. Não tenho a pretensão de ser um Bowie, mas eu acho que devo isto a ele, produzir arte até minha morte, portanto... independente de eu virar um escritor famoso ou não, escrever livros que vendam ou não, o blog deve permanecer aqui até o dia em que eu morrer, produzindo arte.

Hoje celebramos os 70 anos do artista. Neste 2017 esperem por surpresas, esperem por mais loucuras, esperem por mais bebedeiras, esperem por mais textos, esperem por mais música, esperem por mais Bowie, esperem por mais choros, esperem por mais socos na parede, esperem por mais... Vocês não estão sozinhos, é só segurarem a minha mão e deixarem eu levar vocês para longe.

Gustavo Campello