sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

30



Vitor Scaglia acordou as nove da manhã, estava dormindo no carpete, fazia tempo que isso não acontecia, acordou no chão da sala depois de beber pra esquecer seus problemas. Um fio de baba escorria pelo seu rosto e manchava o carpete, tentou lembrar da última vez que acordou ali e não se recordava, devia fazer uns dois anos já.

Odiava fazer aniversário, odiava o Natal, então esse dia era uma combinação perigosa. Lembrava dos natais de quando era garoto, todos terminavam da mesma maneira, ele e seu primo Giulio bebendo tequila sozinhos. Agora seu primo não estava mais ali, seu avô não estava mais ali, se as coisas já eram sem graça imagine agora.

Ele levanta do chão, toma um gole da lata de cerveja que está ao seu lado, ela está quente e choca, deve ter ficado umas seis horas ali do seu lado. Vai até o banheiro e olha as rugas no canto dos olhos e na testa, o tempo e a bebida definitivamente acabaram com ele, está se sentindo bem mais velho do que os trinta anos que viveu.

Assistiu a um filme pornô com a Ricki White, mas ao contrário do que pensava, não se sentiu melhor. Abriu outra lata de cerveja e comeu uma pizza fria, pensou em vomitar, mas desistiu da idéia quando chegou ao banheiro. Olhou para a caixa do cigarro e leu “O Ministério da Saúde Adverte: Este Produto Causa Envelhecimento Precoce da Pele.”

- Vai se Foder – disse para a caixinha de cigarro.

- Você pode querer se destruir, mas a verdade é que tem medo de envelhecer – eu disse.

Vitor ficou pensando sobre isso, depois achou melhor beber cerveja e não pensar mais sobre o assunto. Me xingou de várias coisas.

- Maldito Aniversário! – disse ele olhando para o apartamento antes de ir para Sorocaba – Maldito Natal! – eu disse fechando a porta.

Gustavo Campello

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

CONDENAÇÃO



Lembro-me de uma vez quando meu tio veio com meu primo para Campinas, lembro que ele tinha um carrão e eu e meu primo íamos brincando no porta-malas. Passamos em uma loja de brinquedos e ele pediu para escolhermos algum boneco. Ele escolheu o Luke Skywalker e eu peguei o Darth Vader, ficamos brincando o resto do dia com os novos bonecos.

Ele era assim, pegava o personagem principal, o Jedi, o cara bonzinho, eu era o contrário, sempre ficava com os vilões, com os filhos das putas desalmados, o lado negro da força. Ele era a luz da vida de todos, eu não chegava nem aos pés dele, não tinha coragem de subir até o topo da antena, sempre perdia dele no videogame (não importava o jogo), sempre jogou futebol melhor que eu, fazia manobras no skate, pulava da sacada até o jardim enquanto eu tinha que usar a escada.

Não é justo, era pra mim estar naquele caixão, tudo iria se encaixar como uma luva, as pessoas iam entender melhor, afinal era eu que lutava contra uma depressão de anos, era eu o louco da família, era eu que não tinha muito a perder. Sem imaginar ele salvou a minha vida, sem pensar no que estava fazendo ele deixou tudo comigo, responsabilidades, família, tudo! Era eu que ia fazer isso com ele e não o contrário.

Olhando ele deitado no caixão é quase como se eu não conseguisse sentir nada, é quase como se o nevoeiro que infestava o ar durante a manhã tivesse me engolido e me transportado para uma realidade paralela como em Além da Imaginação. Tento colocar a culpa no maldito nevoeiro e grito pra voltar pra minha realidade de origem, mas me lembro que nessa série, na maioria das vezes, o protagonista se ferrava, então creio que estou preso aqui pra sempre.

Vou esperar minha vida inteira para sair daqui e num piscar de olhos meu mundo vai ser o mesmo de novo e então poderei dar um abraço nele, ele vai ser o mesmo, sem o cavanhaque (porque até o cavanhaque do Spock da Realidade Alternativa do Jornada nas Estrelas ele tava usando no caixão), velho, ganhando de mim no videogame em uma festa de família. Eu vou ser o primo irresponsável, bêbado, escritor e vagabundo de sempre e vamos conversar sobre os velhos tempos.

Porque não consigo parar de pensar que era pra ser eu naquele caixão? Porque não consigo parar de pensar que se eu tivesse coragem pra fazer o que eu tinha que fazer há três anos atrás ele não estaria ali? Porque a porra dos Smashing Pumpkins não tocaram 1979?

Agora não adianta chorar pelo leite derramado, ele me condenou a ficar vivo.

Vitor Scaglia

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

ME LIXANDO


Pronto, é o fim do Blog.... quem gostou gostou, quem não gostou foda-se!

To cansado, trabalhando pra caralho, me fodendo na faculdade, deprimido, confuso, sem vontade de ver ninguém ou de escrever.

Então se você leu este blog e está triste porque ele acabou.... bem, foda-se você também!

É isso aí! Mais nada pra dizer!

Vitor Scaglia

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

ABÓBORAS AMASSADAS



Vitor ganhou um ingresso pra ir assistir ao Festival Planeta Terra porque a mulher do seu primo estava grávida e não ia poder ir. Como nos velhos tempos, só ele e o primo em um show de rock completamente anos 90. Pavement e Smashing Pumpkins remontavam os velhos tempos de glórias, quando estava na faixa dos 17/18 anos, não perto dos 30 com rugas na cara e acabado por causa da bebida.

Nos velhos tempos sempre encontrava conhecidos nesses shows, agora está todo mundo casado e com filho, a cerveja estava cara pra caralho, então não deu pra ficar muito alto. Giulio, seu primo, era fã dos Smashing Pumpkins desde moleque, senão só seria Vitor no meio de desconhecidos que conseguiram passar pela ultima década sem casar ou ter filhos.

- Nossa, nem acredito que vou ver Smashing Pumpkins de novo – dizia Giulio empolgado chegando ao show.

- Vai ser do caralho – disse Vitor empolgado entornando uma cerveja.

- No ultimo show dos caras um filha da puta invadiu o palco enquanto eles tocavam 1979, daí eles pararam a música.

- Não fode! – Vitor nunca tinha visto um show dos Smashing Pumpkins – se alguém fizer isso enquanto eles tocarem Bullet Like Butterfly Wings eu juro que eu mato.

Conseguiram um lugar perfeito, bem perto da grade bem no meio do palco, enxergavam o brilho na careca do Billy Corgan e as pernas maravilhosas da Nicole Florentino. Giulio que tem diabete teve uma crise de falta de açúcar no meio do show do Pavement, mas depois de engolir um pacote de bolacha que Vitor guardava na mochila voltou a passar bem. A mochila de Vitor foi colocada, de tantos lugares para ser colocada, em cima de um chiclete que grudou na camiseta do Natural Born Killers que Vitor tanto amava e estava usando, virou uma meleca nojenta, mas quando os Pumpkins entraram ele esqueceu do imprevisto.

Foi um espetáculo, quando o show acabou Giulio gritava:

- SEUS FILHOS DA PUTA! – e os Smashing Pumpkins foram embora sem tocar 1979, Vitor dava risada recordando de quando tocaram Bullet Like Butterfly Wings.

Gustavo Campello

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O MEDO



Vitor não se sentia bem, olhava o relógio e via os minutos passarem.

TIC

TAC

Olhava para os lados e suava frio. Estava com medo.

TIC

TAC

Tentou lembrar das situações que mais o assustaram. Lembrou-se de quando tirou sangue quando era pequeno, de quando assistiu ao filme do E.T. do Spielberg, de quando se perdeu no shopping, de quebrar o braço ao cair da bicicleta, de quando brigou na escola pela primeira vez, de quando seu avô morreu, de quando Marília morreu, de quando assistiu O Iluminado, de colocar uma arma na cabeça, de vomitar sangue depois de dias bebendo, do dentista filha da puta espetando sua gengiva e do medo de perder tudo que perdeu.

TIC

TAC

O relógio não parava, pensou que podia acertá-lo com um martelo, mas o tempo ia continuar andando. Porque esse medo agora? Porque esse arrepio na espinha?

TIC

PLAF!

Pronto, o relógio tinha sido destruído, ponto para Vitor, mas o tempo continuava passando.

Vitor continuava envelhecendo, o medo continuava com ele.

Gustavo Campello

domingo, 14 de novembro de 2010

O PLÁGIO FRANKENSTEIN



Vitor só tem uma solução para os seus problemas. Ele abre uma garrafa de cerveja e deixa de pensar no problema. Podem dizer que ele é um alcoólatra que usa a bebida para uma fuga da realidade e de seus problemas. Não sei se alcoólatra é a palavra correta para definir o seu problema com a bebida, ele diz que gosta de cerveja e ponto, que pode parar quando quiser, mas que nunca vai querer. Este vício, este amor, esta necessidade para com a cerveja é uma característica que puxou de Hank Chinaski.

Seu humor é uma coisa engraçada, tem dias que acorda achando que está no topo, acredita que vai ser um grande escritor, que tem talento. Tem dias que não está nem aí pra isso, odeia a humanidade, quer que todos morram, ainda acredita que é um grande escritor, mas não quer que ninguém leia suas coisas, porque odeia todo mundo. Trata bem os amigos, trata mal os amigos. Caminha pensando coisas positivas e vai dormir pensando em coisas negativas. Quer entrar em um cinema e atirar em todo mundo e às vezes quer ajudar algum mendigo bêbado na rua. Acorda todo dia emburrado, isto é fato. Este seu jeito ambíguo é quase um traço genético no seu DNA que pegou de Arturo Bandini.

Vitor é pessimista, nasceu assim, acha que tudo que pode dar errado com uma pessoa em todo o planeta vai dar com ele também. Acha que sofre de azar crônico. Olha pras coisas e pensa logo no que vai dar errado, talvez por isso que tudo realmente dê errado. Se acontecer alguma coisa ruim com alguém conhecido, acha que aquilo aconteceu por culpa dele. Se o seu vizinho morrer de câncer amanhã, vai ter certeza que teve sua parcela de culpa com seus charutos na janela. Todo esse lado dele vem de Nick Adams com certeza.

Vitor quer morrer cedo, tem medo da vida. Procura fugas, subterfúgios, saídas pouco ortodoxas quando aparece qualquer responsabilidade na sua frente. É um folgado, prefere ficar em casa escrevendo do que encarar a dura realidade de lá fora. William Lee foi o responsável por isso, porém Vitor nunca usou drogas... por enquanto.

Mas Vitor tem um lado aventureiro, um lado que quer largar tudo e cair na estrada, comprar um barco e dar a volta ao mundo durante um ano, conhecer pessoas novas, beber coisas diferentes, festejar e escrever sobre tudo isso. Este é o lado de Mike Ryko, o lado que Vitor mais gosta e o que menos pratica.

Enfim, tudo isto só prova que Vitor é um plágio.

Gustavo Campello

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O GRITO



Vitor odeia dirigir na mesma proporção que adora tomar cerveja. Nunca teve saco pra entender sobre carro, sempre achou o assunto coisa de gente imbecil. Pode passar uma Ferrari do seu lado que ele não vai ver diferença nenhuma para um Gol por exemplo.

Carros nunca foi o assunto preferido de Vitor, isto sempre foi um fato, porém existe algo que ele adora fazer enquanto está dirigindo. Vitor grita. O carro em alta velocidade, passando por ruas quase desertas, com os vidros fechados ele grita para não ser ouvido. Ninguém consegue ouvi-lo, mas ele grita com toda a força que tem nos pulmões, um grito alto, grosso e vazio, sem interlocutor nenhum.

O grito diz em alto e bom som que Vitor não é uma pessoa vazia, ele não é a pessoa que tenta demonstrar para as pessoas, diz que aquela casca vazia que anda pelas ruas com as suas feições não é ele, é outra pessoa. O grito é o próprio Vitor tentando sair, amarrado no fundo de um poço, preso com grilhões no fundo do oceano. Se alguém ouvisse o grito teria entendido na hora, saberia o que ele queria dizer tão claro como uma manhã de verão.

“Sou um refém do destino”

“Me tire daqui”

“Quero sumir”

Nada é dito no grito que não para nunca dentro do carro, os ouvidos doem, mas a garganta continua tentando desesperadamente expressar o que o cérebro não deixa. Vitor, o cara controlado, que acredita que pode comandar tudo o que acontece ao seu redor. Tudo não passa de uma equação matemática. Por isso que bebe tanto? Precisa de uma válvula de escape pra perder o controle de vez em quando? Precisa que tudo seja como um programa de computador?

“Para o Inferno!” diz o grito “Não agüento isso”

Vitor dirige pensando se existe alguém que saiba realmente quem ele é, que saiba que para ele tanto faz as coisas que acontecem no mundo porque todo mundo vai morrer mesmo. Fatalista. Pessimista. Vitor.

A garganta fraqueja. Gosto de sangue. A voz fica rouca. O grito cessa.

Vitor volta a ser a mesma pessoa de antes, controlado, pessimista, fatalista, acreditando que a cerveja ainda vai salvá-lo e lá no fundo outra pessoa continua gritando por socorro.

Gustavo Campello

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

LIXO HUMANO



Uma idiota do serviço disse que Vitor não podia ter anulado seu voto.

- O caralho que eu não podia – foi a resposta que ela ouviu.

- Você não pode deixar as outras pessoas decidirem sobre o seu dinheiro.

Vitor ficou quieto, não acreditou no que ouviu, estava se lixando para o seu dinheiro, na verdade quase nem tinha dinheiro. Pensou em como as pessoas eram idiotas, em como odiava a raça humana e em como esses imbecis não conseguiam parar de pensar em dinheiro. Na época em que Vitor votava, ia pras urnas pensando em escolher um candidato que pensasse em melhorar a condição de vida das pessoas e não em que diabos iria acontecer com o seu dinheiro.

Vitor olhou para o espelho e se enojou, percebeu que não gostava dos seres humanos e ponto, não gostava de ser humano, não gostava em como os narizes saíam por entre os olhos, em como o suor escorriam pela testa e formações ósseas chamadas de dentes permitiam que ele mastigasse seus alimentos.

Decidiu que queria que a humanidade fosse a merda, é, definitivamente iria fazer de tudo pra que ele fosse a merda mais rápido. Foi a partir daí que aposentou os cestos de lixo da sua casa, jogava tudo pela janela do prédio agora. Garrafas pets, bandejinhas de lasanhas congeladas, potes vazios de rações de peixe e afins. Tudo ia embora pela janela a partir de agora.

- Você ta maluco? – disse Beatriz ao ver ele jogar um pedaço de chaveiro velho na rua outro dia – ta poluindo a rua!

Vitor fez uma cara amarrada, pegou aquilo do chão e colocou no bolso, não queria aporrinhação por esse novo estilo de vida. Em um dia chuvoso escorreu uma panela de óleo por toda a lateral do prédio e riu dizendo – malditos, morram todos com a minha poluição!

Essas coisas duravam pouco, Vitor se sentia um vilão ultra-maquiavélico de alguma história em quadrinhos, mas esse estilo de vida logo passava, porque faltava algum super herói pra combatê-lo. Desta vez ele ficou jogando lixo pela janela durante uns dois meses, no ultimo surto havia demorado o dobro até ele parar.

Quando resolveu voltar a usar o cesto de lixo, foi até a janela e gritou – O voto é meu e eu faço o que quiser com ele sua puta! – e pronto, o ódio havia passado.

Gustavo Campello

sábado, 30 de outubro de 2010

O TRABALHO



Vitor estava finalmente trabalhando, depois de um pouco mais de um ano torrando o pouco dinheiro que tinha em bebidas e macarrão em todas as refeições (as vezes sem molho) ele finalmente estava tirando o pé da lama. Trabalhava em um clube, desses com piscinas e pessoas saradas praticando esportes. Ficava andando pra lá e pra cá com um rádio olhando as gostosas de biquínis e umas gordas horrendas usando os mesmos trajes, com a diferença de que nessas ultimas os biquínis minúsculos entravam nos enormes traseiros cheios de furos de uma maneira nada sexy.

- Tio, chuta a bola pra cá – diziam uns garotos jogando bola em uma das quadras. Vitor nunca jogara futebol e devia fazer uns vinte anos que não chutava uma bola, olhou para o objeto enquanto os garotos pediam que desse um chute. – Tio filho da puta! – gritavam os mesmos garotos quando Vitor chutou a bola e ela foi pra outra direção, foi então que percebeu que definitivamente não sabia como chutar bolas.

Todos já o conheciam por ali, era “O Escritor”, então mesmo não sendo bombado com camiseta justa chamava certa atenção, afinal de contas ninguém precisava saber que havia publicado uns contos em algumas antologias e quase não havia tido retorno nenhum sobre eles. Não era um fracasso, longe disso, só que estava bem longe de ser um sucesso também.

O pior de tudo de trabalhar era ficar sem tomar uma cerveja, às vezes a boca ficava seca, um suor escorria pela sua testa e a única coisa que ele pensava era “Cerveja, cerveja, cerveja, mulher gostosa de biquíni ali na frente, cerveja, cerveja e cerveja”. Pensavam que era um bom moço, mas no fundo era só mais um bêbado fingindo trabalhar.

O lugar pagava bem, estava almoçando carne de novo, mas em compensação andava o dia inteiro pelo clube fazendo rondas e mantendo a ordem. Gostava do seu emprego. Quando alguém estava fazendo alguma bagunça podia falar “Hey, você! É.... Você mesmo moleque! Não pode fazer isto aqui no clube não, cai fora daqui se não te encho de porrada!” e o moleque sai correndo reconhecendo uma verdadeira autoridade.

- Sol filho da puta – dizia ele em voz alta enquanto andava, quando algum cliente olhava pra ele fingindo surpresa ao ouvir tais palavras ele repetia olhando pro sujeito – Sol filho da puta!

Agora Vitor acorda todo dia abrindo a janela esperando um tempo chuvoso, porque nesses dias o clube fica vazio e ele pode ficar parado em um posto jogando Campo Minado no computador.

Mas ele gosta do seu trabalho, gosta de xingar os garotos, gosta de secar as mulheres e gosta do salário que paga a cerveja no final do expediente.

É... Vitor se deu bem.

Gustavo Campello

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

UMA CRÔNICA SOBRE OUTRO ASSUNTO



Vitor tinha começado a trabalhar, todos os seus amigos esperavam que ele publicasse sobre isto em seu blog, mas queria escrever algo original que não tivesse nada haver com o seu trabalho.

Sentou-se na frente do seu computador e pensou sobre que diabos iria escrever, bebeu água em sua caneca laranja, é, aquela caneca que ele ganhou no primeiro dia de trabalho e sua mente se fechou novamente sobre o que escrever.

Levantou-se, olhou pela janela e pensou “Tomara que chova amanhã!”, pensava isso para que tivesse que trabalhar menos amanhã e logo percebeu que estava pensando de novo sobre o trabalho.

- Não quero escrever sobre o trabalho! – disse ele em voz alta tentando afastar os pensamentos – quero escrever algo original, que meus amigos não estejam esperando ver no blog.

Mas nem o monólogo adiantou, a verdade é que não tinha assunto nenhum para escrever, só sobrou falar sobre o trabalho novo, mas ele se recusava.

Abriu a geladeira à procura de algo podre, mas ela estava vazia, ainda não tinha recebido nenhum tostão para repor algo na geladeira. Cheirou e nem sequer um leite estragado havia por lá.

Ligou o som e Raul dizia:

Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro
Jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco...

Lembrou-se que essa música falava da folga de um sujeito do trabalho. Ficou puto.

Sentou-se de novo na frente do computador, estava desolado, pensando em alguma idéia, escreveu um conto mixuruca que contava sobre uma marmita voadora que se espatifou no seu pé quando estava indo comprar uma Neosaldina para Beatriz e ficou por isto mesmo. Desligou o computador e foi assistir a um filme.

Gustavo Campello

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

BANCÁRIOS EM GREVE



Vítor tinha conseguido um emprego novo.

- Você precisa de uma conta corrente pra ser contratado – disse a mulher do RH.

Ele foi abrir a conta, todo feliz, parou na frente do banco e leu a placa vermelha que dizia “BANCÁRIOS EM GREVE”.

- Filhos da puta!

Voltou pra casa frustrado, pensando que de tantos dias pros bancários entrarem em greve, tinha que ser justo quando ele precisava abrir uma conta.

- Os bancos tão em greve – disse Vitor pra mulher do RH.

- Você precisa de uma conta corrente pra ser contratado – disse a mulher do RH.

“Que porra de mulher é essa?” – pensou Vitor – “Uma andróide? Uma gravação? Mas que porra!”

Voltou no banco, bateu na porta e disse – Preciso abrir uma conta! – a mulher que estava lá dentro o mandou ir se ferrar mostrando o dedo.

- Filha da puta! – disse Vitor desistindo de abrir uma conta, foi beber pra esquecer toda essa merda.

No dia seguinte os bancos continuavam em greve e por mais quinze dias foi assim, sendo que no décimo ele foi até um banco e ficou sentado com uma faixa que dizia:

SE VOCÊ É BANCÁRIO E ESTÁ EM GREVE
VÁ SE FODER!

Quando os bancos voltaram de greve no décimo sexto dia ele foi todo feliz abrir a porra da conta, estava com todos os documentos, a gerente olhou pra ele e disse:

- Volte na semana que vem, estamos com muito serviço por causa da greve e não temos tempo pra abrir conta.

- Filha da puta!

- Segurança!

E foi assim que Vitor começou uma peregrinação de banco em banco e todo mundo dizia a mesma coisa, tinham muito serviço e chamavam o segurança.

Teve um banco em especifico que não quis abrir porque ele tinha o nome sujo.

- Porra – disse ele – lógico que eu tenho o nome sujo, não posso trabalhar pra pagar as contas sem essa merda de conta corrente! – quando na verdade tinha o nome sujo porque não pagou um empréstimo que ia caducar daqui dois anos. Não tinha a menor intenção de pagá-lo.

Vitor foi até um banco lá na casa do caralho, longe por bosta e disse que queria abrir uma conta.

- Podemos abrir agora – disse a menina prestativa.

- Sério?

- Lógico, é o meu trabalho.

- Você não vai me enxotar?

- Porque faria isso?

- Porque está com muito serviço por causa da greve.

- Não se preocupe – disse ela sorrindo – nossa agencia não entrou em greve.

- Filha da puta – disse Vitor bem baixinho pra não ser ouvido e pensando que já podia ter começado a trabalhar há quinze dias se tivesse ido até lá.

Gustavo Campello

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

BOAS NOTÍCIAS



Vitor tinha uma novidade para contar.

Pensou pra quem poderia contar. Beatriz estava dando aula, Mario e Larissa tinham ido viajar, Marcel estava morando em outro estado, Enzo devia estar cuidando dos cinco filhos neste momento, Carla morava longe, Helio tinha desaparecido já fazia algum tempo e Jorge devia estar trabalhando que nem um louco.

- Alô? – disse Vitor depois de ligar para Jorge – que está fazendo?

- Nada – disse ele – quer ir tomar umas?

Aquilo era quase como um filme de terror, como assim Jorge não estava fazendo nada? Ele sempre foi o Workaholic do grupo, será que estava sonhando? Vivendo em outra dimensão? Era uma noite de quarta feira e Jorge tinha proposto de ir beber umas? Imagens de cenas do seriado Além da Imaginação bombardearam seu cérebro deixando-o transtornado.

- Beleza – disse Vitor estranhando e se beliscando pra ter certeza que era real – to saindo daqui.

Combinaram o bar, Vitor chegou depois porque não tinha carro.

- Tenho uma novidade – disse Vitor feliz.

- Eu também – disse Jorge sorrindo, ele só podia ter ganhado um dinheirão na loteria, era isso, estava milionário.

- Vou começar a trabalhar – disse Vitor se adiantando à notícia – começo semana que vem.

- Eu pedi demissão – falou Jorge virando um copo de cerveja. Não estava milionário.

Era a primeira vez que Jorge ia ficar sem trabalhar, Vitor achou estranha a notícia e se beliscou de novo, ainda mais porque ele mesmo iria começar a trabalhar depois de um ano de férias.

Jorge estava de saco cheio de fazer tanta hora extra e ganhar sempre a mesma merda de salário, tinha ido até a sala do chefe e gritado “EU ME DEMITO!”. O Chefe ficou atônito, afinal Jorge sempre fora calmo e competente no trabalho, tentou argumentar para Jorge reconsiderar, mas nenhuma palavra conseguiu sair de sua boca com o choque, ao invés disso deu uma viradinha e deixou um peido escapar fazendo um barulho curto e grave.

- Essa foi a única reação do cara? – perguntou Vitor incrédulo com o relato – um Peido?

- Pois é, anos de trabalho e a argumentação dele foi um peido, sem contar as contorções no rosto – Jorge parecia aliviado e descontraído como há muito tempo não ficava – Vai ver ele estava com caganeira, sei lá! E você? Vai trabalhar no que?

- Contínuo – disse Vitor orgulhoso – sempre Contínuo!

Vitor tinha uma carreira de contínuo, afinal ninguém ia contratar ele pra exercer funções de muita responsabilidade mesmo, então já havia se habituado ao cargo, pelo menos sobrava tempo pra escrever.

- Porra! Mas contínuo de novo? – foi a única coisa que Jorge conseguiu pensar, os parabéns vieram depois.

Gustavo Campello

domingo, 10 de outubro de 2010

NADA PRA FAZER/ESCREVER



Vitor estava sentado na frente do seu computador, não tinha nada pra fazer, ficou encarando o seu reflexo no fundo escuro do descanso de tela.

Entrou num site de putaria, bateu uma punhetinha e depois ficou pensando que não tinha nada de bom passando na televisão.

Entrou num site com pirataria de quadrinhos, fez o download de uma meia dúzia e leu todos pensando “Se eu tivesse um macaco, também ia se chamar Ampersand”.

Entrou no Soulseek e pegou três álbuns completos do David J., ouviu todos com uma certa nostalgia, lembrou do final dos anos 90 quando escutava estas mesmas músicas quase todos os dias.

Abriu a geladeira e bebeu cinco latas de cerveja com salgadinho de pimenta.

Deu comida para os peixes.

Ligou a televisão, se recordou de que havia lembrado antes que só havia programas ruins passando e desligou rápido.

Foi ligar para alguém, então percebeu que o celular estava sem bateria. Lembrou-se que havia esquecido o carregador na casa da Beatriz.

Leu um conto do Marcelo Mirisola enquanto cagava e depois ficou sentado mais um tempo no trono pensando que não tinha mais porra nenhuma pra fazer. Tomou um banho demorado ouvindo os mesmos CDs do David J. que tinha acabado de pegar no Soulseek e ouvira algumas horas atrás.

Entrou no Facebook, colheu seus tomates no Farmville e plantou melancias.

Foi até a geladeira e percebeu que a cerveja tinha acabado, virou um copo de run seguido de um copo de suco de pêra.

Deitou na cama e dormiu.

Outro domingo havia passado.

Gustavo Campello

terça-feira, 5 de outubro de 2010

EMPURRANDO O FUSCA



Era meia noite, Vitor estava bêbado em casa e o telefone tocou.

- Alô?

- Vítor?

- É ele!

- É o Mario!

- Aquele que me comeu atrás do armário? – piadinha de praxe que Vitor sempre falava quando ele ligava.

- Preciso de uma mão, acabou a bateria do meu Fusca. To há três quarteirões da sua casa.

- Vem pra cá.

- Nem, preciso que me ajude a empurrar esta bagaça até em casa.

Mario morava há uns cinco quilômetros de distância, ia ser uma bela de uma empurrada, Vítor pensou no trabalho que ia dar e estava pensando em alguma desculpa, mas depois imaginou o mico que ia ser, não é todo dia que se empurra um Fusca do centro da cidade até a casa do Mário e achou que ia ser divertido.

- To indo praí!

Chegando lá, Mario estava de pijama esperando por ele.

- Mas que merda, porque está de pijama?

- Não achei que o carro ia pifar, porra! – Mario estava indo buscar a namorada, na rodoviária, mas devido ao ocorrido ela já tinha ido pra casa de taxi mesmo.

Começaram a empurrar o carro, Vitor nunca tinha imaginado que um Fusca pesava tanto, estavam ainda na avenida principal e já suavam bicas, passaram por um carrinho de cachorro quente lotado de gente e todos olharam para a cena, um bêbado e um cara de pijama empurrando um Fusca.

- Hahahahahaha, força aí!

- Olha a roupa daquele cara!

Vitor parou pra acenar pro pessoal enquanto Mario empurrava sozinho o Fusca dando risada, ambos não davam a mínima para a gozação, se tinha alguém como Vitor que não ligava de pagar mico era o Mario. Se o Jorge ou o Walter estivessem ali, ambos abaixariam a cabeça e ficariam vermelhos.

Continuaram empurrando o Fusca prateado fazendo poses de fodões.

- Se meu pai me visse agora ia dizer que eu sou macho – disse o Mario.

- Se meu pai me visse agora ia me chamar de idiota – disse Vitor.

Depois de muito esforço chegaram a casa onde Mario morava com a namorada Larissa, a garagem em compensação era uma rampa pra cima e o carro não subia nem fodendo.

- E agora?

- Porra, trouxemos o carro até aqui pra não conseguir enfiar na garagem?

- Vamos dar um impulso!

Arrastaram o Fusca alguns metros pra trás da garagem e miraram no portão.

- Super Gêmeos, Ativar – gritou o Vitor no meio da rua enquanto Mario tocava na sua mão.

- Em forma de um gigante de gelo – gritou o Mario.

- Em forma de um rinoceronte – gritou o Vitor.

Empurraram com o toda a força que tinham, o carro subiu a rampa e bateu com o pára-choque na parede.

- Pelo menos entrou! – Vitor disse tentando consolar.

- Certo – Mario olhava o amassado – tem cerveja aí, vamos entrar.


Gustavo Campello

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

ARTE TRANSGRESSORA



Beatriz havia acabado de voltar de um festival de arte em outro estado.

- E aí? Como foi? – pergunta Vitor.

- Putz, teve uma oficina de performance horrível, você ia adorar.

- Hahahahaha, como era?

- Tinha uma temática transgressora, algo de ir contra o sistema, chocar as pessoas, essas coisas.

- Putz!

- Um gordinho entrou com uma fralda e uma tira de couro espremendo o peito, ficou parecendo que tinha umas tetas de mulher, enfiou a mão na fralda e pixou a parede com algo que parecia bosta!

- Não fode!

- É sério, todo mundo pensou que era bosta mesmo, mas era doce de leite.

- Hahahahahahahahaha, mas que merda!

- Não, era doce de leite!

- Hahahahahahahahaha, o que uma pessoa tem na cabeça pra fazer isso? – Vitor estava com a barriga doendo de tanto rir de imaginar a cena, nunca entendeu essas performances artísticas e entendia menos ainda o que diabos um gordinho de fralda pixando com algo que parecesse bosta tinha de transgressor ao sistema – mas diz aí, o que ele pixou?

- “A burguesia fede!”

- Não fode!

- Sério.

- Ele não podia ser original?

- O cara estava de fralda pixando a parede com um doce de leite que parecia merda, ta, foi horrível, mas não da pra dizer que ele não foi original.

- Hahahahahahahahaha! Tá certo!

- Teve outro cara que estava nu, com uma lixa de pé escondendo o pinto e um saco pendurado cheio de bombinhas que devia estar amarrado no próprio saco dele. Daí ele tirava as bombinhas do saco postiço, esfregava na lixa e estourava elas no chão.

- Não fode!

- É!

- Nossa, onde será que vive esse tipo de gente?

- Como assim?

- Porra, eu nunca conheci alguém que ficaria nu, com uma lixa escondendo o pinto e estourando bombinhas de um saco pendurado nos bagos!

- Ah, ta cheio de gente assim por aí.

- Por aí onde? Conheço um monte de gente que fez arte, você, o Jorge, a Larissa mesmo que faz artes cênicas não teria coragem de fazer uma merda dessas - pensou mais um pouco em alguém - Nem o Mario faria uma coisa dessas!

- Hahahahahahaha, realmente o Jorge nunca faria algo assim - Beatriz tentava imaginar a cena e ria compulsivamente.

- Essas pessoas devem viver em árvores com portinholas ou embaixo da terra, só aparecem pra essas oficinas, nem fodendo que são pessoas reais.

- Foi constrangedor!

- Ah, eu ia dar muita risada se estivesse lá - Vítor se imaginava rolando no chão de tanto rir enquanto as pessoas levavam suas performances a sério.

- Sorte que você não foi, teve uma menina que ficou imitando robô...

Ambos ficaram em silêncio, estavam imaginando a mesma cena. Vitor invadindo a performance, atacando a mulher e gritando “REPLICAAANTE!”. Vitor deu um sorriso, olhou para Beatriz e disse:

- Não perco mais estes festivais por nada!

No próximo ela iria passar vergonha.

Gustavo Campello

sábado, 25 de setembro de 2010

A FAXINA



Vitor estava deitado na sua cama quando sentiu uma agulhada na sua nuca, era um cabo de conexão neural que uma comunidade de ácaros super desenvolvida que morava embaixo de sua cama havia fabricado para se comunicar com ele. Eles pediam para que ele parasse de peidar.

Vitor acordou.

Havia sido um sonho estranho, olhou para o carpete do seu quarto, havia inúmeras manchas nele, foi quando se deu conta de que já fazia três anos desde a última faxina. Levantou bem disposto a arrumar tudo, tirou todos os móveis do quarto e começou por ali, a cama foi a mais difícil, era grande e pesada, imaginou ficar soterrado por aquele colchão king size e só conseguir sair quando sua namorada desse por sua falta.

“Aquela mancha foi quando vomitei run a noite inteira e minha garganta ficou toda fodida” lembrou ele esfregando com uma escova, nem toda mancha saiu, porém aquela mancha de molho de pimenta que já fazia parte do cenário havia dois anos saiu mais rápido do que ele imaginava. Uma camisinha embaixo da cama deixou uma mancha irremovível, mas como ficava embaixo da cama não tinha problema, ninguém ia ver.

Depois que o quarto havia sido arrumado e um holocausto de ácaros estava em andamento, resolveu limpar a sala. Antes passou na geladeira e abriu uma cerveja. Na sala havia de tudo um pouco, amendoins ancestrais, macarrões pretos, milhos guerrilheiros escondidos por toda a parte e um pedaço de salsicha estrategicamente escondido atrás do estabilizador. Vitor só achou a salsicha quando foi ligar o aspirador de pó no maldito estabilizador que pifou assim que ele começou a aspirar. Pegou outra cerveja e jogou o estabilizador pela janela do décimo primeiro andar.

A cozinha era a sua próxima vitima, baldes e baldes de águas estavam sendo jogados por toda a cozinha enquanto ele esfregava todo azulejo entre uma cerveja e outra, lembrou então que já era tarde e não havia almoçado, iria se preocupar com isso depois. Neste momento a água do prédio foi cortada. Revoltado ele foi até a portaria saber o que estava acontecendo, mas um cartaz no elevador dizia “Vai faltar água hoje! Manutenção do apartamento 1206” – filho de uma cadela – falou em voz alta e voltou para o apartamento onde só restava esperar. Ficou bebendo mais cerveja.

Acordou no dia seguinte no chão da cozinha, todo molhado e com frio, a única diferença no cenário era uma nova poça de vomito que ele nem imaginava de onde tinha surgido, continuou a faxina como se ainda fosse o mesmo dia.

“Falta o banheiro” – pensou, mas este foi mais fácil porque era o único lugar do apartamento que sofria faxinas esporádicas, quando terminou se sentiu muito melhor e mais tranqüilo, pois só teria que repetir este martírio daqui há três anos.

Gustavo Campello

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

OS OBSERVADORES



- Eu aposto que ele vai comer macarrão hoje de novo! – diz o mais grandão dos três – ele sempre come macarrão.

- Grande merda! Nós também comemos sempre a mesma coisa – diz o mais rabugento, ele está sempre reclamando, não gosta de muita coisa, então os outros dois costumam ignorá-lo, assim ele acaba dizendo a mesma coisa duas vezes, sempre - Grande merda! Nós também comemos sempre a mesma coisa.

- Eu gosto do que comemos todos os dias, além do mais tem gente por aí que nem tem o que comer – o menor entre eles é quase uma criança e vê sempre o lado positivo de tudo – ele sempre come macarrão porque é nutritivo e deve ser gostoso.

- Dane-se vocês, eu preferia comer o macarrão ao invés da merda da nossa comida, odeio ter que o ver comendo este macarrão através desse vidro – ninguém pareceu notá-lo de novo - Dane-se vocês, eu preferia comer o macarrão ao invés da merda da nossa comida, odeio ter que ver ele comendo este macarrão através desse vidro.

- Vai lá e pede pra ele – diz o menor.

- Um dia eu faço isso!

- Da mesma maneira que você diz que um dia vai embora para Huahine e comer coisas diferentes todos os dias – o maior sempre gosta de provocar os outros dois, mas no fundo são amigos, bem, não porque escolheram, mas porque o destino assim o quis.

- Um dia vou ser um rei e comerei até um pedaço daquilo que ele sempre come!

- Se chama Filé! – disse o menor não dando tempo para repetições.

- Eu sei como se chama – virou-se de costas para não ter mais que olhar a vida alheia através de um vidro – Eu sei como se chama!

- Lá vem ele – disse o maior cheio de expectativa.

- O que ele está trazendo? – ele voltou correndo para o vidro sem se queixar – O que ele está trazendo?

- Não deu pra ver ainda.

- É macarrão!

- Qual? – ainda não tinham conseguido ver – Qual?

- Parece ser um comum com molho de tomate.

- Delícia! Delícia!

Vítor sentou em sua mesa sem imaginar que era alvo de uma discussão, pegou uma taça de vinho e comeu todo o macarrão com bastante queijo.

- Ele vai repetir, sempre repete – disse o menor se gabando de seu conhecimento sobre o cara que eles gostavam de observar. Realmente Vitor repetiu o prato, após terminar a refeição, porém se virou e encarou os três.

- Ele olhou pra gente – diz o maior.

- Está vindo pra cá – diz o menor – porque não aproveita e pede o macarrão para ele?

- Não seja idiota, vamos nadando! – então o mais rabugento se põe a nadar fingindo que está tudo bem e repete para os outros que o imitam – Vamos, não sejam idiotas, vamos nadando!

Vitor fica alguns minutos encarando seu aquário, sem imaginar o que pode passar na mente de peixinhos tão ariscos.

Gustavo Campello