quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O COPO CONTINUA NA JANELA



Então você foi embora, fiquei parado em frente ao meu portão vendo o seu carro se afastar lentamente até sumir rua abaixo.

Em casa, depois de quase dois meses, ainda está na janela o copo onde bebeu água pela última vez, sua toalha permanece pendurada no banheiro e inúmeros badulaques seus eu coloquei em uma caixa de plástico. Não chorei, só fiquei deitado na cama durante sei lá quantos dias sem entender direito o que tinha acontecido, ainda não chorei.

No mundo virtual me deparo com um meme que diz: “Uma das coisas mais difíceis da vida é não falar mais com quem você falava todos os dias”.

Vontade de jogar o celular na parede.

Sinto-me em animação suspensa, dentro daqueles tubos de vidro, completamente congelado enquanto o mundo lá fora está em constante modificação, em completa metamorfose em um mundo em que não me encaixo mais. Odeio tecnologia, mas é só assim que as pessoas se conectam hoje em dia.

Sozinho.

Seguimos caminhos opostos, seu carro descendo a rua e eu ficando aqui, nesta tumba suja e empoeirada que é esta casa sem você, mas ainda não chorei, devo ter perdido todos os meus sentimentos, devo ter virado aquela pedra de gelo que você tanto me acusava de ser.

Sem levantar da cama assisto a um filme depois do outro. Totò tenta me fazer rir sem sucesso, Steve McQueen interpreta um cara frio e escroto que me obriga a encarar meus defeitos e Jack Lemmon me salva de cair no fundo do poço.

Nada vai ser como antes, já estive neste exato momento mais de uma vez, mas quanto mais envelheço mais difícil fica de estar aqui de novo e de novo e de novo. Olhando a imensidão do mundo como se fosse o último homem nele. Sozinho de novo.

Revivo a mesma cena, de olhos abertos e fechados, a cena do seu carro descendo a rua, e eu sou como o Jack Lemmon no final daquele filme, olhando pela janela a mulher que ama ir embora, porque se ele não a amasse, então terminaria o filme com ela.

Gustavo Campello

3 comentários:

  1. Olha, só o tempo pra resolver isso. Ou não, cada caso é um caso e só quem senti sabe. Mas assim como você já se acostumou com outras, essa não será diferente. Enfim.

    Boa tarde, abraço.

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  2. "porque se ele não a amasse, então terminaria o filme com ela." Ah, sei lá. Acho mais terminaria a vida como ela, embora fosse ela a empurrá-la para o buraco. O final é triste mesmo, mas é o único cabível.

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    1. Fosse ele a empurrá-la para o buraco. Lamento o erro.

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