Vitor estava
pensando sobre a vida, em como em alguns momentos parecia que nada acontecia e
como tudo podia ficar atribulado de repente, sentia que não havia vivido nada e
as vezes sentia que já tinha passado por tudo que a vida tinha para oferecer.
“Suponho
que seja possível viver uma vida completa em setenta horas, tanto quanto em
setenta anos. Contanto que a vida esteja amadurecida desde o começo das setenta
horas, e que já se tenha uma certa idade.”
Vitor
concordava com isto, não importava o tempo que se vive, desde que se viva
intensamente. Já havia tido inúmeras vidas em mais ou menos horas, vidas
inteiras, com começos, meios e fins. Vidas engraçadas, vidas apaixonantes,
vidas depressivas, vidas com finais felizes, vidas com finais infelizes. Estas
ultimas vidas eram mais freqüentes, diga-se de passagem.
“Gostaria
que vovô estivesse aqui” - pensa Vitor - “ ...gostaria muito de
conversar com ele. Porque há muitas coisas que eu gostaria de saber. Tenho o
direito de lhe perguntar agora, pois tive que fazer coisas do mesmo tipo. Não
acho que hoje em dia ele se importaria que eu perguntasse. Antes eu não tinha o
direito de perguntar. Entendo a sua recusa em me falar, ele não me conhecia.
Mas agora acho que nos daríamos muito bem. Gostaria de conversar e ouvir seus
conselhos. Diabos, mesmo que não me desse conselhos, eu queria conversar com
ele, simplesmente. É uma pena que haja um abismo de tempo tão grande entre nós.”
O fim de
sua primeira vida chegou no momento em que seu avô morreu, quanto a isto não
havia dúvida. Sentia falta dele, sentia raiva por ele ter morrido quando Vitor
mais precisava dele ao seu lado, lembrava de todos os momentos que conseguia,
do seu sorriso, da sua voz, dos seus abraços, das suas aulas sobre bacias e
rios usando suas varizes como exemplo e dele caído no chão com a cabeça aberta,
o sangue escorrendo do crânio e depois entre os dedos de Vitor até cair no
chão. Um frio percorria toda a espinha de Vitor e seu avô tentava dizer que
estava bem para não deixá-lo ainda mais assustado. Lembrava de tudo isso e
ainda conseguia sentir tudo de novo, da alegria do abraço até o terror do
sangue que escorria pelos dedos.
“E você,
estou contente que tenha resgatado algo que havia perdido, algo que lhe fazia
muita falta. Mas você estava mal mesmo há pouco. Fiquei muito envergonhado de
você, por um momento. Só que eu era você. Não havia um eu julgando você. Nós
dois estávamos muito mal. Você e eu, nós dois juntos. Vamos lá, agora. Pare de
pensar como um esquizofrênico. Um de cada vez. Agora você está no caminho
certo, novamente.”
“Mas qual
era o caminho mesmo?” - Vitor não se lembra, sabe que estava nele, mas se
perdeu, não consegue se lembrar por mais esforço que faça. Sabe que tinha um
destino, que tinha algo para realizar, algo que daria significado a sua vida,
mas tudo se perdeu – “pra sempre?”
Gustavo
Campello
(Texto em
Itálico retirado do livro Por Quem os Sinos Dobram de Ernest Hemingway)