sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O CULTO À SERPENTE



“A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha formado. Ela disse à mulher: “É verdade que Deus  vos proibiu comer do fruto de toda árvore do jardim?”. A mulher respondeu-lhe: “Podemos comer do fruto das árvores do jardim. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: Vós não comereis dele, nem o tocareis, para que não morrais.” – “Oh, não! – tornou a serpente – vós não morrereis! Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal.””

Esperta a serpente, ludibriou os homens que era e ainda são idiotas, que são ingênuos perto dos joguetes de seres muito superiores a eles. Depois da ludibriação da serpente a humanidade sempre esteve em apuros. Eu não acredito em Adão e Eva, como não acredito em nenhuma frase do livro de Gênese, mas esqueçamos o que eu acredito ou deixo de acreditar, deixemos de lado, por um momento, no que acreditamos ou deixamos de acreditar e levemos o livro de Gênese a sério, vamos supor que ele é real, que tudo aconteceu exatamente como está ali, mesmo que não faça sentido nenhum.

Então se tudo for verdade a serpente atuou lá em Gênese e ficou quieta até então? Nunca mais tentou ludibriar a humanidade? Ficou de boa na canoa?

É o ano de 382 e o Papa Dâmaso I é o único homem acordado na madrugada daquele dia durante o Concílio de Roma, ele olha para sua mesa onde monta uma primeira lista dos livros que a igreja considera santos e que entrará futuramente em um livro que será chamado de Bíblia.

- Confuso? – diz a serpente de maneira safa se aproximando do Papa.

- É um trabalho cansativo – o Papa olha para a serpente, que conhece faz tempo, um ser que sempre lhe ajudou e que toma por um anjo – mas acredito que Deus irá me ajudar através de ti não é mesmo?

- Não lhe ajudei em nome Dele sempre? – a serpente sorri.

Mal sabe o Papa que esta mesma serpente ajudou Flavius Valerius Constantinus durante o Concílio de Nicéia há 57 anos atrás e que desde então vinha formando a Bíblia conforme seus planos. Já vinha há anos preparando também Jerônimo de Estridão, um sacerdote que serviria a seus propósitos, para traduzir os pergaminhos do grego e hebraico ao latim para popularizar ainda mais o “livro santo” que tanto trabalhara para produzir. Seus planos eram metódicos, sempre pensando no longo prazo, pra quem tem milhares de anos de vida e mais milhares de anos por vir, era um trabalho relativamente simples.

A Bíblia foi criada e a religião deturpada: guerras, fogueiras, torturas, mais guerras, estupros e inúmeras atrocidades foram e são cometidas até hoje em nome de Deus e de Cristo. Tudo usando a Bíblia como propósito. Ninguém liga se o que está escrito lá faz sentido ou não, ninguém liga se Jesus disse que era pra amar o pecador, o foco é no que pode e não se pode fazer, o foco está sempre no que a serpente reescreveu. Ninguém liga se Jesus tratava as mulheres como iguais, o foco é no texto reescrito pela serpente onde a mulher deve ser submissa. Ninguém liga pras contradições, cada um pega o que bem entende ali... Se a palavra fosse única, haveria apenas uma religião cristã e não um monte, cada uma com uma visão diferente da outra.

Sem saber, os religiosos continuam em sua fé, seguindo o Culto à serpente, seguindo preceitos que qualquer um que questionasse o que há de contradição no “livro santo” chegaria à verdade inabalável que ninguém quer enxergar. A iluminação está ao alcance de todos, mas a humanidade continua seguindo a serpente. Até quando?

Gustavo Campello
Texto em Itálico: Gênese - Capítulo 3, Versículos 1 ao 5

domingo, 5 de fevereiro de 2017

O INIMIGO DA MÚSICA



Sem nada para oferecer, o Edifício é como um dia de execução, o que rege esse mundo é tudo o que um corpo tem a oferecer.

Eu não sei quem sou, pois nada é algo, pois tudo o que eu sou é a única coisa que os Duendes Mecânicos não conseguem ludibriar, mas eles fazem como em aulas de física que algumas pessoas queriam esquecer, pois fazem cada vez mais sentido. Meu único problema é a bebida, pois é quando estou constantemente na cabeça dos Duendes Mecânicos.

Por sentido nenhum jamais irei sorrir, pois me deixam cada vez mais louco esses Duendes, mas não existe o quem somos e fumando um procuro sentido apenas em leis relativas. O fluxo dos Duendes Mecânicos é uma tremenda piada quando se sabe das coisas. Morrendo um pouco eu continuo bebendo, o que alivia um pouco, mas eu queria poder sentir que essa batida minha não é uma piada.

Fazer as coisas direito é algo que não deixou aquilo em que acredito, Bram nem imagina. Fazem eu ser outra pessoa, estão me mudando esses filhos da puta. Saber disso já é algo que sei faz tempo. O horror é insuportável. Nem meu orgulho próprio criado por cientistas é um ritmo que pode mudar. Não queria, mas nem isso faço, viver no Subterrâneo como um herói, isso é algo realmente pra quem sonha, porque aquilo lá embaixo, a todo momento, existe pensamento e um sentido aparente. Nossos pensamento, em algum momento ou a todo momento, irão sumir. Seria interessante para que eu pudesse seguir em frente.

Você pode ser eu, pois os Duendes Mecânicos seguem leis absolutas em sua casa, não tenho culpa por ser estúpido. Eles são os vilões. Bêbado e morrendo como um gambá com um cigarro no cu só de sacanagem. Mosquitos que picam escrevem sobre amor, sobre ter câncer na minha pele, meu cérebro cheio de marcas porque a Damis foi embora.

Guerra e paz, é isto que sou, mas tentam roubar isso de mim, ou não. A qualquer momento podemos, em todas as noites, sermos dissecados. Todos os dias, em todos os dias mesmo, o outro sem pensamento estará dentro de nós mesmos. Me foderam o tempo todo, pois não querem dar pra mim essas coisas, podiam pelo menos me oferecer um amor, mas então me vejo neste mundo o tempo todo lutando contra algo que se chama música.

Gustavo Campello

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

DEUSES ADORAM PESCAR



A vida veio do mar, mas o que ninguém sabe é que o universo é o mar dos deuses, as coisas vistas lá de cima fazem sentido, já que pra eles a vida veio do universo. Então vamos ficar nesta comparação, o universo é o mar dos caras grandões lá de cima.

Mas o que ninguém sequer imagina, é que como aqui no nosso planeta, lá entre eles também existem vários torneios universais de pescaria. Jesus é o cara, campeão inúmeras vezes, mesmo que venha perdendo alguns campeonatos recentemente pra Alá e tal. Pelo universo há enormes peixes e os planetas criados pelos deuses nada mais são do que iscas, é isso mesmo, você vive em uma isca de peixe e nada mais. Este ano Jesus acredita que vai conseguir pegar a Moby Dick do universo, já que a nossa galáxia é uma região nova no pedaço e logo logo vai chegar os peixões por aqui.

- Porra, este planetinha azul mequetrefe fede, tu acha que vai pegar alguma coisa com ele? – diz Alá tirando sarro.

- Zoa não! Zoa não! Meu pai que fez!

- Alpha Centauri é muito mais esquema, muito mais organizado!

- Acho que a Terra é mais esquema porque tem o fator surpresa, não tem nada tão esquisito como esses bichinhos que vivem ali.

- Dá nojo, os peixes vão fugir, porra!

- Vou arriscar!

- Tu perdeu os últimos dois campeonatos, Jesus, por causa dessa confiança no teu pai! Te situa!

- Mano, não zoa papai, ganhei muito campeonato com a ajuda dele!

- Perdeu a mão, perdeu a mão!

Zeus anuncia o começo do campeonato e a pescaria começa, cada deus escolhe sua isca e é uma zona. Jesus fica com a Terra, Alá com Alpha Centauri, Ganesh fica com Proxima b, Katrrogarrax fica com Nibiru e os outros vários deuses de fora do universo pegam as suas.

O peixão finalmente aparece entrando no novo “oceano”, os deuses ficam eufóricos.

Enquanto isso em um centro de pesquisas espaciais na Terra:

- Puta que pariu! Que porra é aquela?

E morreu!

Jesus ganhou mais um campeonato.

Gustavo Campello

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

PLACEBO



Era o dia 27 de Abril de 2005, acontecia um evento histórico na cidade em que Vitor morava, o Placebo iria tocar e pela primeira vez não precisaria ir até São Paulo para assistir a um show. Vitor não era mais o cara que havia ido no Rock in Rio há quatro anos atrás. Estava casado com Elize e era pai de uma garotinha, mas o show tão próximo de onde morava não podia ser desperdiçado, Elize concordou que ambos iriam. Este foi o primeiro e único show em que os dois foram juntos.

- Olha essas meninas – disse Elize ao chegar no local – todas alternativas, do jeito que você gosta.

- Eu gosto de você – disse Vitor tentando burlar a insegurança da mulher, ele ainda não estava acostumado com a insegurança constante que paira sobre todas as mulheres que conheceu.

Alguns amigos dele estavam por lá, mas não conseguiu encontrar ninguém, Jorge ligou no seu celular, mas não conseguiram se achar. O show começou com a banda tocando Taste In Man.

Depois da terceira música, uma das preferidas de Vitor (Every You Every Me), Elize começou a reclamar que estava com dor de cabeça. “Qual a novidade?” Vitor pensou, ela sempre estava com dor de cabeça. Praticamente perderam a música Protect Me From What I Want para achar um lugar pra sentar, tinha uns lugares de camarote em um andar acima, onde podiam ficar sentados e tinham uma bela visão do palco.

Quando tocaram Without You I’m Nothing Vitor pulou da cadeira:

I'm unclean, a libertine
And every time you vent your spleen
I seem to lose the power of speech
You're slipping slowly from my reach
You grow me like an evergreen
You've never seen the lonely me at all

Vitor se preocupava com a dor de cabeça de Elize, mas ao mesmo tempo sentia raiva por estar tão distante da multidão que pulava na pista, gostava daquela sensação, das cotoveladas, do suor se misturando, das vozes cantando juntas... ele pertencia a pista, ao amontoado de gente.

Elize estava emburrada, e o emburramento de Elize sempre afetava Vitor, talvez por isso que não deram certo, talvez se ele não ficasse tão afetado não haveria problema, mas ela ficava cada vez pior quanto mais afetado ele ficava e era um ciclo infinito pronto para explodir.

Foram embora discutindo aquele dia, por causa das meninas bonitas com botas e saias e que tinham um jeito de alternativas que Vitor não ligava à mínima, pois só tinha olhos para Elize.

Gustavo Campello

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O COPO NÃO CONTINUA NA JANELA E ESTÁ CHEIO DE GIN



Recentemente li uma carta postada na internet que foi das coisas mais estúpidas que já vi na vida, chamava “Quero Estar Solteira, mas Com Você” e reflete exatamente a geração de hoje, daí li outro texto que chamava “Estamos Formando uma Geração de Egoístas, Egocêntricos, Alienados e Inconsequentes” que vou usar como resposta pra carta.

Tinha uma namorada, é... tinha, no verbo passado, ela picou a mula, foi-se embora, se mandou. Porque? Na minha visão ela se mandou porque a coisa tava ficando séria... é... casamento, responsabilidades, comprometimento... Quem quer isso nos dias de hoje? Seis anos de relacionamento não é brincadeira, pelo menos não pra mim aparentemente, mas pra algumas pessoas é sim. Ela queria estar comigo e se sentir solteira, mas pera lá, comigo não, isso não funciona.

Ou você está solteiro ou você está comprometido. Ponto. Estar com alguém é se comprometer, é se entregar, é amar e ser amado, é compartilhar, é querer estar com esta pessoa, é querer que ela esteja com você, que faça parte da sua vida e não simplesmente ter alguém pra trepar e querer sair com seus amigos sozinho. Eu queria sair com meus amigos com ela lá, queria que ela participasse, queria rir com ela, queria beber com ela, queria sair com ela... enfim, mas a geração egoísta, egocêntrica, alienada e inconsequente não pensa assim, essa geração pensa que ser solteira e estar com você é lindo, afinal esta carta viralizou em toda a internet e você deve ter lido ela em algum momento.

Eu queria casar com esta namorada, queria envelhecer com ela, queria ser feliz e passar por dificuldades, queria vê-la chorar e vê-la sorrir, queria poder estender minha mão quando ela precisasse e queria que ela fizesse o mesmo, mas não foi assim, a gente nem sempre pode ter aquilo que você quer (como já dizia o Mick Jagger naquela música dos Stones).

A vida é feita de escolhas, a gente toma uma decisão e segue em frente, toda ação tem uma reação e precisamos saber lidar com elas. Um relacionamento é uma decisão, quando a tomamos fechamos a porta pra várias outras coisas, não dá pra se ter tudo na vida e é preciso ter consciência disso. Hoje as opções são tantas que as pessoas nem sequer sabem tomar uma decisão. Querem tudo e querem agora.

Enquanto essa geração não aprender a tomar decisões tudo será fútil, tudo será sem sentido, tudo será como é... vazio. Pelo menos pra mim é assim e invejo quem não tem essa percepção da realidade e acha linda a carta do começo do texto.

Estou tentando seguir em frente, esquecer o passado, rasgar lembranças como ela rasgou meu coração (Sim, eu posso soar piegas, tenho todo o direito), sair com amigos, ficar bêbado, sair com mulheres de reputação duvidosa e tudo o que a solteirisse possa proporcionar. Tenho o direito. Enquanto meu coração continua a se recosturar o copo de gin continua sempre cheio e parei de ser trouxa que nem o Jack Lemmon.

Gustavo Campello

domingo, 15 de janeiro de 2017

SOLIDÃO DA MADRUGADA NA PISCINA



Já passam das duas horas da manhã, meu corpo boia na piscina que funciona como um analgésico ao horrível calor que faz nesses dias de verão. Uma garrafa de vinho boia vazia junto ao meu corpo, meu cachorro corre em volta da borda com seu medo constante de que eu me afogue, não foram poucas as vezes que ele pulou achando que estava realizando um resgate heroico. Olho para o céu estrelado, mesmo bêbado consigo localizar Alpha Centauri, minha casa, pra onde sonho um dia poder voltar.

Esta piscina de amores, temores e tantas histórias.

Lembro-me quando meu avô escorregou e bateu com a cabeça na borda, sua cabeça abriu, o sangue jorrava e se misturava na água, tentava estancar a corrente do líquido vital em vão, o sangue melado escorria pelos meus dedos e ele tentava a todo custo me acalmar, fingindo que não havia sido nada. Levou vários pontos, mas durante muito tempo a única imagem que tinha quando ia nadar era da água ficando vermelha.

Ainda consigo ver ela na borda conversando comigo, eu declarei meu amor ali e ela sorriu, e consigo lembrar como se fosse ontem, do peito batendo mais forte, dos olhos dela brilhando, da energia que transcorria pelo meu ser de que tudo iria ficar bem, de que daríamos um jeito no que viesse pela frente, mas ela me abandonou mais vezes do que posso contar.

Uma vez posso jurar que deitado assim como estou agora pude ver um veículo de última geração recém fabricado em Alpha Centauri passando muito próximo, foi muito rápido, mas por um minuto achei que finalmente haviam me achado, que finalmente iam me tirar daqui, mas eles nem me viram, ou se viram, nem se preocuparam em me tirar daqui.

Sozinho, boiando, mas querendo afundar.

Gustavo Campello

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O MAQUINISTA ESTÁ MORTO



Em Memória de David Bowie

Desapareceu para achar longamente um novo maquinista. O antigo está morto, neste momento ele está flutuando de um jeito muito peculiar, e se as pessoas pudessem olhar por trás das paredes do Edifício, veriam que as estrelas estão bem diferentes hoje. Mas o novo maquinista há de surgir, enquanto isso não há viagens para fora do Edifício.

Vão de ferro até o Deus Fungo, pois o ferro é o caminho, ele tudo queima, o único medo do Deus-Fungo é o ferro, mas enquanto não houver um novo maquinista canhoto que vá longe demais o ferro será a estrada da enganação. A maneira Dele escapar. Mas Dele ninguém escapa.

Todos foram aos subterrâneos, que apesar do tamanho, foi suficiente para o adeus. Lá estavam os Duendes Mecânicos, mas não foram ao mesmo tempo, mas dando gritos para o nada que o mataram, perseguido por pequenas rodas verdes. 

No Mundo Poderoso do Fígado ele está, mas não é mais desperto, pois o abismo da morte era realmente fantástico.

Falam dele, aguardam as drogas mutiladas lá da rua. A droga azul. Fuga inevitável da manipulação dos Duendes Mecânicos. Fuga do controle do Deus-Fungo. Sem o maquinista só resta a droga azul, nada mais.

Cansado de sua missão, morreu chegando ao seu parecer sobre o Edifício. Lugar dos vivos que não vivem, lugar onde a morte não consegue chegar. Mas o parecer final apenas ao maquinista pertence.

Ele, o metrô, veio. Ele desapareceu por um longo tempo para achar um novo maquinista, mas ele voltou livre, como um pássaro azul e com cicatrizes que não podiam ser vistas.

Gustavo Campello