quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

NOVA VIDA, NOVO COMEÇO



Vitor pediu demissão do emprego, não servia mais para aquilo! Não servia mais para lugar nenhum. Estava cansado de ser cobrado por pessoas que faziam tudo errado, de ter que ser todo sorrisos praquele idiota que se acha um coitado só porque anda de cadeira de rodas, porém ninguém suporta ter que conversar com ele, porque chato é chato, seja com os dois pés ou com nenhum. Mandou o chefe ir tomar no cu, aquele ladrão safado, embolsa as doações de entidades para o clube para ter sua enorme chácara e um belo apartamento de praia com sacada e vista para o mar. Todo mundo sabe disso, mas todo mundo precisa do emprego.

- Vai tomar no cu! – disse Vitor, o chefe que não estava acostumado a ouvir isso de nenhum funcionário ficou sem reação, Vitor bateu a porta e foi embora.

Ia sentir saudades de algumas pessoas, mas depois de alguns meses descobriu que algumas pessoas nem sentiram a sua e ficou por isto mesmo. “Engraçado como tem pessoas que a gente acha que vai levar pro resto da vida e simplesmente não fazem questão da sua presença. Outras que nem damos bola estão sempre ali e acabamos levando pro resto da vida e acabam sendo mais importantes” pensou entornando um copo de cerveja uns meses depois. Estava sem emprego de novo, sem namorada, sem expectativas, com muita pouca grana e vivendo no mesmo apartamento apertado de sempre.

Foi no supermercado comprar cerveja e salsichas para fazer cachorro quente, a refeição do homem macho e desempregado. Saindo olhou um cachorro preto com cara de dó, parecia sozinho, abandonado e sem expectativas de vida, era quase a contraparte animal de Vitor, ele lhe deu uma salsicha, o cachorro agradeceu e Vitor continuou indo para sua casa. Quando chegou viu que o cachorro estava seguindo ele, quase que suplicando por outra salsicha, estava magricela, dava pra ver suas costelas, Vitor ameaçou chutar o cachorro pra ele ir embora, mas não surtiu efeito, o animal achou que ele estava brincando e logo abanou o rabo.

Vitor ignorou o bicho, continuou seu caminho, chegou no apartamento e fechou a porta na cara do seu incômodo acompanhante, olhou a cara de dó e disse.

- Pro inferno uma coisa dessas! – abriu a porta e deixou-o entrar – Acho que vamos ter que estabelecer novas regras aqui Sam.

Sam olhou pro dono estranhando o novo nome.

- Estou duro, vamos ter que dividir a droga dos cachorros quentes... – Vitor olhou pra carinha dele – Pro Inferno com isto... preciso emagrecer mesmo!

Sam comeu todas as salsichas aquele dia e Vitor ficou com as cervejas, eles iam ter que aprender a viver juntos agora, dividir seus espaços, Vitor teria que limpar suas merdas e Sam teria que limpar os seus vômitos, mas o que importava é que a partir de agora nenhum deles estava mais sozinho.

Gustavo Campello

sábado, 10 de dezembro de 2011

SOBREVIVÊNCIA



A irmã mais nova de Vitor ia se casar hoje, ele havia decidido não comparecer, não se dava muito bem com ela e se dava muito menos com um primo que iria estar lá, ia acabar dando bosta. Queria evitar confusão. Desejava tudo de bom para ela, apesar de todos os problemas do passado.

Pensou em como seus pais estavam feliz, em como essas coisas de ter filhos, casar, passar em um concurso público, trabalhar, ter carro, roupas novas e seguir um certo padrão da sociedade enchiam eles de orgulho. Vitor jamais teria isso, nunca iria saber o que era transmitir este sentimento de orgulho para os outros e não entendia porque se sentia tão mal quanto a isso. Ele havia escolhido como seria sua vida, tinha decidido por si só que caminho seguir e estava aguentando as consequências nas costas já fazia muito tempo.

A visão que as pessoas tinham dele é que sua vida era muito boa, cercado de bebidas e com alguns poucos amigos aparecendo na sua casa de vez em quando. Ele não bebia porque a vida era fácil, era exatamente o contrário, ele bebia porque a vida era uma puta de uma filha da puta e beber era a única coisa que fazia com que ela ficasse o mínimo suportável.

Não esperava que ninguém o entendesse mais, só esperava que o deixassem quieto no seu canto, ignorassem sua existência. Sentia como se estivesse involuindo, se transformando em alguma espécie de animal, gostava se sair caminhando pela chuva forte e grunhindo como se fosse um lobo ou um coiote. Sentir a chuva batendo no seu corpo, a noite envolta dificultando a visão, a postura curvada e os cabelos e a barba longa molhados, sentia vontade de gritar e até de atacar alguém qualquer.

Talvez fosse esta sua sina, se afastar cada vez mais da humanidade, ver aqueles seres tão diferentes dele ao longe, como um animal assustado na beira da estrada olhando os carros. Vitor se sentia feliz com quem ele é, com quem ele escolheu ser, mas ao mesmo tempo se sentia triste porque ninguém conseguia olhar para ele e enxergá-lo, ninguém jamais conseguiria compreendê-lo e estaria então sozinho para o resto da vida.

Vitor podia viver com isto.
Vitor podia viver com quase tudo, pois ele é forte como um lobo, poderia sobreviver em qualquer lugar sob qualquer situação... Se quisesse.

Gustavo Campello

domingo, 4 de dezembro de 2011

O VAMPIRISMO DA VIDA PÓS-MODERNA



Eu já reagi a assaltos com facas, já reagi a assaltos com armas, já arrumei brigas na rua, já dormi na calçada e muito provavelmente já matei um homem, bati tanto na cabeça dele que nem me importei depois que me afastei deixando-o lá desacordado. Foi ele quem começou, um tremendo idiota, tentou me assaltar, então não tenho a menor pena.

Pensando nisto mais racionalmente percebo que não tenho o menor medo de morrer e durante muito tempo procurei pela morte meio que sem sucesso, acho que não era a minha hora, acho que as coisas são pra ser como são, ou quando a gente procura demais por ela nos tornamos meio que imunes a certos percalços.

Prefiro morrer do que viver como a maioria das pessoas, do que ser parte da massa de imbecis que de geração em geração ganham cada vez menos para sobreviver e sustentar mega corporações com o custo de seus suores e anos de vida, de robôs condicionados a criar uma suposta sociedade onde tudo o que fazemos é assistir nossas vidas esvaindo-se como grãos de areias entre dedos inescrupulosos de políticos corruptos e aceitar que leis e normas nos mastiguem como urubus e abutres mordiscando carniças.

Prefiro ver minha vida se esvaindo em nada, prefiro estar a parte e dar risada da suposta sociedade ridícula em que eu deveria viver e me contentar, seguindo partituras pré ensaiadas que ditam como eu deveria me vestir, falar, comer ou cagar. Escarro minha escatológica filosofia barata em qualquer um porque é tudo o que eu tenho, é tudo em que acredito, é tudo o que me restou.

E daí que eu nunca vou ser feliz vivendo como eu vivo? Agora eu já vi toda a peça por trás da cortina, não tem mais como entrar em cena e fingir que tudo é real, fingir que eu sigo algum script quando na verdade tudo o que eu faço é improvisar.

Eles podem até sugar o meu sangue, mas pelo menos eu sei que ele está sendo sugado.

Vitor Scaglia

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

OS TRÊS PRESENTES IGUAIS, TRÊS PESSOAS DIFERENTES E VÁRIOS PEIXES



Em homenagem a todos os meus peixes

Vitor não se lembrava quem ele havia tirado no primeiro amigo secreto da família, ele era pequeno, achou tudo aquilo divertido, porém ele se lembra perfeitamente que seu primo Giorgio o havia tirado, seu presente foi o melhor presente que ele poderia querer de aniversário e natal juntos, um aquário. Levou para a casa todo feliz, queria muito um desses porque o seu primo tinha um, lembrava de um verão em que o aquário estava vazio e eles encheram ele de lagartixas, caçavam lagartixas por toda a casa, depois as alimentavam com moscas, borboletas e qualquer outro tipo de insetos que encontravam. Este seu primeiro aquário teve uma vida curta, sua irmã bateu uma cadeira nele e o quebrou. Lembra de um Tricogaster que deu o nome de Jibóia por ser o terror do aquário, vivia batendo nos outros peixes, Vitor colocava o peixe de castigo em um pote branco ao lado do aquário para ele aprender a não maltratar os outros peixes, mas aquilo nunca funcionou. Jibóia morreu no holocausto da cadeira juntos com vários outros peixes, mas era da Jibóia que ele lembrava mais. Todos esses peixes haviam sido dados pelo seu primo Sandro que morava no mesmo prédio que Vitor, eles ficavam num pote em cima da escrivaninha do primo, quando Sandro ficou sabendo do aquário de Vitor achou melhor para os peixes irem para um lugar mais confortável e doou Jibóia e Cia.

Seu segundo aquário foi comprado como presente de aniversário de 10 anos, lembra até hoje de ir com seu pai até uma loja de aquários que se chamava “Moby Dick” e escolher um aquário de trinta litros com tampa e apoio de madeira, plantas de plástico, um timão amarelo que soltava bolhas e um motor de oxigênio vermelho. Seu pai havia ajudado a escolher o melhor aquário do mundo. Este aquário Vitor acabou dando para sua filha, mas ela desistiu depois que a Dorothy morreu. Vitor passou anos com ele ao lado de sua cama, vários peixes passaram por ele e talvez tenha sido com ele que Vitor tenha começado a tentar escrever algo, pois produzia histórias em quadrinhos baseadas nos seus peixes, chamava “Defensores do mar” ou algo assim... Vitor ainda tinha guardado todas essas histórias, mesmo sabendo hoje que esses peixes eram de água doce e morreriam rapidamente se fossem colocados no mar. Ficou sabendo recentemente que a filha dera o aquário para um tio sob pressão da avó e Vitor realmente estava feliz em saber que alguém estava cuidando dele e ele ainda continha alguns peixes, mas ficou com raiva da ex-sogra por ter dado o aquário sem ele saber.

O terceiro aquário de Vitor e que ele conservava até hoje havia sido dado por Beatriz no seu aniversário de 29 anos, gostava de olhar para ele e lembrar-se dela, de lembrar-se do Ramireze que vinha até o seu dedo para que ele fizesse carinho, do Labeo Frenatus que aterrorizava os outros peixes como Jibóia fazia a muitos anos atrás, dos seus três Matos-Grossos que iam fazer dois anos em breve.

Três aquários, os três melhores presentes da vida de Vitor, todos dados em seu aniversário, todos dados por pessoas importantes e todos com suas próprias histórias.

Gustavo Campello

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

PRESO NA TEIA DE ARANHA



Vitor estava bêbado, era aproximadamente uma hora da manhã, caminhava sozinho em uma avenida movimentada. Não havia mais ônibus na rua, ou ele não reparava nisso, sua casa estava longe, seria uma bela caminhada, um pé atrás do outro, pernas se contorcendo, mas nenhuma vontade de vomitar.

Sentiu a bexiga apertar, precisava mijar, os carros não paravam de passar e a avenida tinha um certo movimento ainda, alguns bares e restaurantes ainda estavam abertos. Andou mais uns dois quarteirões até que observou uma árvore bem grande na próxima esquina – “Vou mijar naquela árvore escondido do sentido que os carros vem – pensou Vitor indo em direção ao seu futuro banheiro.

Quando se aproximou sentiu que algo o parou no ar, seus pés já não encostavam o chão, pedaços da sua pele haviam sido dilacerados, ficou ali pendurado em algo que seu cérebro não conseguia entender o que era.

Imaginou-se como uma mosca em uma teia de aranha, aguardando o momento fatídico em que o predador aracnídeo iria enfiar-lhe o ferrão e devorar suas entranhas liquefeitas. Suas mãos doíam, suas pernas doíam e sua barriga também doía. Foi então que percebeu que estava preso em uma cerca de arame farpado, inclinou o seu corpo para trás e se viu livre, devia estar ridículo pendurado daquele jeito pros carros que passavam e olhavam para aquela cena. Desenroscou o agasalho e viu que tinha várias partes do corpo sangrando.

- Sua cerca filha da puta! – Vitor tirou o pinto pra fora e mijou na cerca mesma, foi então que sentiu falta do seu óculos e imaginou corretamente que ele havia caído para dentro da cerca, teve que se contorcer todo para passar para o outro lado da cerca e procurar sua fonte de visão apalpando o chão que agora estava todo mijado.

Encontrou seus óculos há uma distância considerável da cerca, o impacto entre eles devia ter sido grande, a sorte é que ele estava seco. Voltou para o outro lado e foi caminhando para a casa mancando e com algumas dores no corpo.

Agora ele sabia como uma mosca se sentia presa a uma teia. Chegou em casa, deitou-se na cama do jeito que estava e sonhou que combatia uma aranha gigante em um reino de teias digno do desenho Caverna do Dragão, iria matar aquela desgraçada peluda e conquistar o coração de Sheila trazendo-a para casa, ela seria sua cara metade, ele sabia disto desde que tinha seus cinco anos. Acordou e pensou – “Bem que podíamos deixar aquele irmão chato dela por lá!

Gustavo Campello

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

OBJETOS



O pente e a saboneteira que se encontram no banheiro de Vitor remontam momentos históricos de sua infância. A saboneteira provavelmente é mais velha que ele, o pente faltando algumas cerdas, azul, deve ser de quando tinha uns 10 anos. Ele é de plástico e não tem nada de especial, apenas seguiu junto com Vitor por tempo demais, assim como a colher bailarina, que é a única que mistura o seu leite, nenhuma outra colher tem esta tarefa – “seria uma heresia usar outra colher”- pensa Vitor.

Um óculos-escuro do seu avô fica guardado na gaveta, usou ele em uma festa a fantasia, mas sempre evita usá-lo por se tratar de uma raridade, ainda tem uma blusa de lã que também pertenceu ao velho. Em cima do seu computador fica uma caveira de gesso que comprou em Gramado-RS, seu nome é Zé Tobias, lembra-se daquela viagem com seus avós onde conheceu Silvana, tinha 13 anos e se apaixonou, quando voltou mandou flores, mas deve ter assustado a garota, nunca mais se viram.

Dois santos, uma Nossa Senhora das Graças e um São Francisco que foram dados pela sua avó quando saiu da casa dos seus pais ainda estavam ali, meio escondidos, mas ainda estavam ali.

Um CD de instalação do Windows 98 que seu primo Giorgio lhe deu quando este tinha acabado de ser lançado. Olhava pro disco e tentava se lembrar de mais algum objeto que tinha sido dado por seu primo, mas não conseguiu lembrar-se de mais nenhum. Resolveu que iria pedir o baixo dele para sua tia.

Espalhados por vários lugares haviam desenhos feitos por Bianca, rabiscos de quando ela tinha cinco anos, animaizinhos de quando ela tinha sete e casas e árvores de quando ela tinha nove. Pensou que tinha que colocar todos em uma pasta. Iria organizar aquilo.

Objetos espalhados por todo o minúsculo apartamento traziam recordações, cada um tinha uma história, cada um lhe lembrava de um momento, cada um lhe era mais importante que tudo. O aquário, o apito, o Sr Cabeça de Batata, camisetas, um barco a vela do Kinder Ovo, um óculos 3-D de papel, uma presilha de cabelo, uma caixa de lenço em formato de elefante, um pôster desenhado por George Pérez, uma sombrinha bem afeminada, um manati de pelúcia chamado Herman, tartarugas de porcelana, copos de Star Trek comprados no Burguer King e várias outras coisas.

Olhou para as garrafas de gin vazias em cima da geladeira e se perguntou porque guardava aquilo.

Gustavo Campello

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A FESTA DO BANHEIRO



Vitor estava cansado de trabalhar no clube, não porque o trabalho era chato, mas porque as pessoas eram chatas. Ele nunca se deu bem com pessoas, no fim das contas, mas parece que com a idade esta implicância vinha crescendo dentro dele.

Tentou pensar em algo chato em relação ao seu trabalho, tinha tempo de ler, não acontecia nada demais, escrevia e rascunhava coisas o dia inteiro, mas terça feira era diferente, Vitor odiava todas as terças feiras. Terça feira era o dia de o pessoal ir jogar vôlei.

A quadra enchia de bixinhas com seus gritinhos agudos, Vitor não tinha nenhum problemas com eles, uma vez deu briga entre duas bibas e Vitor teve que ficar plantado lá como segurança.

- Muito bem – ele disse estufando o peito – não quero mais ver bagunça aqui, vou ficar em cima de vocês.

- Ui! – gritou uma lá do fundo – ele vai ficar em cima da gente. Eu primeiro! Eu primeiro!

Vitor levou na brincadeira, havia morado um bom tempo ao lado de um vizinho travesti que acabou virando um amigo. A parte ruim do seu trabalho de terça feira era depois do jogo de vôlei e não era na quadra, mas sim no vestiário, onde acontecia a famosa Festa do Banheiro da Terça Feira.

Homens comendo homens, homens masturbando homens, homens chupando homens, homens beijando homens, homens em cima de homens, homens embaixo de homens, homens enfiando coisas em homens, homens amando homens, homens batendo em homens. Enfim... Era um pandemônio!

O trabalho de Vitor na terça feira consistia em impedir que homens comessem homens, homens masturbassem homens, homens chupassem homens, homens beijassem homens, homens ficassem em cima de homens, homens ficassem embaixo de homens, homens enfiassem coisas em homens, homens amassem homens, homens batessem em homens. Enfim... que os homens fizessem qualquer coisa com outros homens.

“Isto é um saco” – pensava ele – “eles que se fodam, literalmente, eles que façam a suruba que eles quiserem, eu não tenho nada com isso, não sou pago nem pra ficar interrompendo essas merdas, nem pra ficar vendo essas merdas”.

Então Vitor deixava os homens comendo homens, homens masturbando homens, homens chupando homens, homens beijando homens, homens em cima de homens, homens embaixo de homens, homens enfiando coisas em homens, homens amando homens, homens batendo em homens. Enfim... Era a famosa Festa do Banheiro da Terça Feira.

Era só aparecer no clube de terça feira, estar no banheiro masculino a partir das 21:30 e ser homem e pronto, você estava convidado. No fim você nem precisava jogar vôlei.

Gustavo Campello