sábado, 21 de agosto de 2010

O PEIXE ZUMBI



Vitor estava cansado, ainda tinha que escrever uma crônica. Tinha saído, bebido todas na casa do Jorge, mal conseguia andar, lembrou-se do seu peixe zumbi e foi olhar o aquário.

O peixe em questão era um neon, mais precisamente um tetra cardinal, já fazia quase um mês que ele não estava comendo, desde então começou a emagrecer e ficar com um jeitão meio de que estava apodrecendo, resolveu então batizá-lo de peixe zumbi. Imaginava ele a noite correndo atrás do outro peixe falando – cérebros, cérebros! – e os peixes correndo pelo aquário como num filme B.

Vitor olhou para o aquário e o peixe estava ali, morrendo, deitado nas pedras, não sentiu vontade de deitar na cama e dormir, iria ficar ali, com seu peixe zumbi até a hora que ele morresse. Era a única coisa que podia fazer. Havia limpado o aquário um dia anterior para que ele pelo menos morresse com a água limpa, não que o aquário estivesse sujo, mas gostava de manter os peixes em um ambiente saudável.

Vitor deitou-se no carpete, teve vontade de vomitar, enquanto isso o peixe zumbi tinha uns espasmos e alguns vinham para perto dele, pensando que logo ele iria virar comida.

Umas três da manhã o peixe morreu, Vitor levantou-se, tirou ele do aquário antes que fosse despedaçado pelos outros peixes e enterrou o peixe na privada. Deu descarga. Deu uma mijada. Deu descarga de novo e foi dormir.

Dias depois descobriu que seu peixe estava com tuberculose, nem imaginava que peixes podiam pegar tuberculose, só esperava que os outros continuassem bem.

Gustavo Campello

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

IMAGINAÇÃO



- São um bando de idiotas – dizia Beatriz sobre seus alunos, ela havia acabado de pegar uma matéria nova na faculdade em que dava aulas e era sempre assim, ela se irritava quando algo não dava certo.

- Talvez sua ideia não tenha sido tão boa assim.

- Não vem com essa, Vitor – ela estava muito irritada – A ideia foi boa, eles que são preguiçosos, não se dedicam a nada direito.

- Eu não acho que iria conseguir fazer.

- Você faz faculdade de economia, lógico que não ia conseguir fazer.

- Se fosse com dinheiro, papel ou até com garrafas de plástico eu conseguiria.

- Mas não é com dinheiro, papel ou garrafas de plástico!

- Você já conseguiu fazer a sua? – Vitor agora intimidava Beatriz que ficou sem graça e emburrada.

- Não! – respondeu ela.

- Então...

- Então o que? Você quer dizer que vai dar tudo errado na minha aula, né? Eu vou perder meu emprego! Vão me achar incapaz de dar outras aulas e vai estar tudo perdido.

- Certo! Tudo bem, calma – Vitor se preocupava quando ela ficava assim, não gostava de ver ela irritada, na verdade não gostava de ver ninguém irritado – Mas o que você vai fazer se eles não conseguirem fazer?

- Não sei, estou perdida, vou reprovar todo mundo, eles que se fodam, você que se foda também!

- Heeeeeeeey!

- Desculpe – disse ela se acalmando – Estou nervosa!

- Jura? Nem deu pra perceber!

- Ah – disse ela se irritando de novo – Vá se foder!

Beatriz saiu deixando Vitor lá, sozinho, imaginando o que tinha falado de errado, ele pensava que odiaria ser seu aluno na aula de escultura.

- Já vi esculturas de gesso, esculturas de ferro, esculturas de madeira – divagava ele em voz alta – mas esculturas de meias? Acho que a Beatriz não bate bem, que dó dos alunos! – e Vitor voltou a estudar sobre Neoliberalismo para a prova que teria dali a pouco. Ficou imaginando como diabos iria fazer uma escultura usando meias? Podiam falar o que fosse da sua namorada, mas ela tinha imaginação... Muita imaginação, era por isso que gostava dela.

Gustavo Campello

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O CAMINHO



Durante a semana, de segunda a sexta, Vitor sai de sua casa as 18:30hs. Saindo do elevador sempre tem que ouvir seu porteiro falar de futebol, mesmo não dando muita bola para o esporte em questão, sempre preferiu beisebol, fato estranho se levarmos em conta o país onde vive.
Virando a primeira a direita ele entra em uma rua suja de bosta, tem bosta pra todo lado, parece um campo minado, é sempre importante deixar os olhos bem abertos e ir desviando para não sujar os pés, os muros dessa rua são usados de latrinas, tem sempre um filho da puta mijando, Vitor finge que não vê e segue em frente, ele imagina se todas aquelas merdas no chão são de cachorros ou se algumas podem ser humanas, mas acha melhor não pensar sobre o assunto.

Saindo dessa rua ele chega a uma enorme avenida, a maioria do seu percurso é nela que ele anda, é uma das avenidas principais da cidade, está sempre cheia, uns oito ônibus fazem fila no ponto, pessoas vêm e vão para todos os lados, quando está muito quente o rio que fica entre as pistas fede que nem um lixão e mosquitos perambulam grudando no seu rosto. Vitor andou por esta avenida a sua vida inteira, brinca que quando morrer quer ser cremado e que suas cinzas sejam jogadas naquele rio fedido.

Ônibus passam no sinal vermelho e buzinam para ele como se fosse um crime andar a pé por ali, existe um cruzamento com uma rua chamada Santos Dumont que nem sequer existe um sinal para pedestre, a faixa está ali, porém você tem que esperar a boa vontade de algum motorista ou que os carros simplesmente parem de passar para atravessar, Vitor às vezes imagina que as pessoas têm que ser um Transformer e virar um carro para poder passar por aquele cruzamento – Vereadores filhas das putas que não ligam a mínima para os pedestres – pensa sempre que passa por ali, todo santo dia.

No caminho passa por aquele barzinho novo tão legal que lembra o Ozzo, não que tenha música ao vivo, mas pelo menos toca algo legal e as pessoas ficam na rua bebendo cerveja, não tem mesa, não tem petiscos, só cerveja e um bando de gente da velha-guarda, mais velhas, como ele.

Quando pega a Rua dos Alecrins sempre tem que desviar de carros parados na faixa de pedestre, as pessoas parecem que nem notam que existem pessoas passando a pé ali, é quase que como o pedestre tivesse que pedir desculpas por não ter um carro. Passa por uma batataria, que é onde Beatriz trabalhava como garçonete, quando eles começaram a sair. Lembra de um amigo que morava naquela rua, ele tinha uma cachorra que de tão velha já estava cega, ela andava em linha reta e quando batia a cabeça na parede deitava e esperava que alguém a tirasse dali. No final tem uma padaria que tem o melhor pão da cidade.

Atravessa uma praça onde dondocas andam com seus cachorrinhos, também é preciso tomar cuidado com as bostas por ali. Passando pelo local ele finalmente chega a rua de seu destino, onde um gato preto sempre passa na sua frente para renovar um pouquinho o azar que Vitor tem de sobra, finalmente chega no Bar do Jean, toma uma cerveja e vai assistir a aula da faculdade sabendo que tem todo o caminho de volta ainda no fim da noite.

Gustavo Campello

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

PELA METADE



Vitor Scaglia estava de saco cheio, parecia que tudo que ele começava na vida não tinha um final, a última coisa que ele deve ter terminado foi (além da garrafa de vinho que estava ao seu lado) o segundo grau, isso há mais de dez anos, estava fazendo uma faculdade de economia, mas não se identificava em nada com o curso – É um bando de vendidos! – dizia ele se referindo à profissão, parecia que tudo tinha que girar em torno de dinheiro.

Sentia-se perdido, não tinha vontade de trabalhar, então ficava em casa escrevendo, achava tudo sem sentido – Pra que diabos eu vou trabalhar com alguma coisa que eu não gosto se eu vou morrer no fim como todo mundo? – as pessoas sempre tinham a mesma resposta também – Dinheiro!

Era um pessimista da pior espécie, se pensava em fazer alguma coisa diferente, logo desistia porque muito provavelmente iria dar errado, não porque a idéia era ruim, mas porque era ele que iria por em prática. Achava que era o cara mais azarado da face da Terra, mas as coisas realmente acabavam dando errado com ele, então não terminava nada.

Atualmente está escrevendo um livro e não está disposto a desistir, o livro vai provar que ele pode terminar alguma coisa sem que esta coisa seja o segundo grau ou uma garrafa de vinho. Quando não está com idéias resolve escrever crônicas, coisas pequenas para exercitar a escrita e fazer o cérebro funcionar.

Vitor está em frente ao computador olhando para uma crônica que está incompleta, se levanta, vai comer um pão com mortadela e cerveja.

A crônica é só mais uma das coisas que ele vai deixar pela metade.

Gustavo Campello

domingo, 1 de agosto de 2010

VISITA EM FAMÍLIA



Os pais de Vitor Scaglia moravam em uma cidade próxima, dava uns cinqüenta minutos de viagem, na verdade quase toda a sua família morava lá, as duas avós, uns cinco primos, dois tios e duas tias e mais uma porrada de gente, Vitor costumava aparecer por lá pelo menos umas três vezes por ano, era uma freqüência baixa devido a proximidade da cidade, mas evitavam comentar sobre o assunto.

Era sempre a mesma coisa, chegava à casa de seus pais e se indagava “porque diabos tinha uma escova de dente lá?” Ela era usada tão pouco e provavelmente iria durar mais de cinco anos, na verdade devia ter uns três anos agora e ainda estava tão nova, era uma escova de dente muito melhor do que a que estava em sua casa, sempre que visitava seus pais pensava “Está na hora de trocar a escova de dente que está lá em casa”. Tinha também um chinelo e era muito mais confortável do que o que tinha em sua casa também, sua mãe mandara fazer aquele chinelo em alguma senhora que fazia chinelos e mesmo ele parecendo chinelos de idosos eram muitos bons nos pés. “Devia levar esses chinelos para casa”, mas sempre os deixava lá.

Sempre que ia visitar seus pais e parentes batia aquela saudade de casa, não gostava de sair, deixar suas coisas, seus peixes sem comida, era definitivamente um homem caseiro. Ficava no máximo três dias fora de casa, nunca mais do que isso, mas quando ia tomar banho sempre pensava que podia ficar uns dias a mais, aquele chuveiro era o melhor chuveiro que já tinha visto na sua vida, a água saía com tanta força que massageava suas costas, podia deixar a água muito quente no inverno e muito fria no verão, seu chuveiro definitivamente não era assim, funcionava direito, mas era um chuveiro comum, porém tinha aquela gota de água gelada que sempre pingava nas suas costas, dizia que ia concertar aquilo, mas sempre esquecia, Beatriz, sua namorada, sempre reclamava do seu chuveiro e sua maldita gota gelada.

Visitava o primo em uma das noites que passava por lá, cresceram juntos, era como um irmão, tomavam cerveja, jogavam videogame e era sempre humilhado em todos os jogos da face da Terra, mas tudo bem, o importante era jogar, mesmo em suas melhores performances no futebol acabava perdendo nos pênaltis depois de um empate suado. Bebiam mais e conversavam sobre qualquer coisa, de todas as pessoas da família, seu primo Giulio, era o que mais estimava.

Sua avó, acometida com o mal de Alzenheimer balbuciava palavras sem sentido, havia ido especialmente para lá ver ela, pois tinha tido um sonho onde ela, seu falecido avô e o irmão dele também morto jogavam cartas em uma sala estranha no outro mundo.

- O que está fazendo aqui, menino? – disse o avô preocupado.

- Vim ver o jogo – Vitor disse despreocupado no sonho. Tudo aquilo parecia um sonho, portanto devia saber que estava sonhando.

- Estou esperando minha irmã – disse a avó, que ainda não estava morta no mundo real, mas parecia tão acostumada ali, com aquele cenário tão estranho.

- Menino – disse o irmão do avô, tão simpático e brincalhão – você tem que dar o fora daqui, ainda está vivo.

Vitor acordou e sentiu que precisava ir visitar a avó, que parecia estar esperando a irmã morrer para poder ir junto. Foi visitá-la e ficou ali com ela, tão distante, sem nem o reconhecer. Vitor lembrou-se de fotos antigas dela, era realmente gostosa, o tipo de mulher pela qual ele se apaixonaria fácil – “Que homem de sorte era meu avô” – pensou ele ao ver aquela foto pela primeira vez, pois se ainda existisse uma italiana tão gostosa, que se apresentasse, duvidava que existisse.

Foi-se embora depois de três dias. Cinco meses depois todo o ritual se repetiria, mas desta vez levou os chinelos.

Gustavo Campello

terça-feira, 27 de julho de 2010

O BAR DA CIDADE



Aquele era o bar da cidade, não que fosse o único, mesmo porque não era uma cidade pequena, mas toda a cidade já passou por ali, lógico que tinha os freqüentadores assíduos, como também tinha os freqüentadores eventuais, este último era o caso de Vitor Scaglia, não freqüentava mais bares como antigamente, aquele nunca fora o seu bar, mas estava ali com a namorada, sentia falta do Ozzo que já não existia mais há mais de cinco anos. Ozzo era o seu bar, cerveja barata e música alta.

O bar estava cheio, muito cheio, queriam sentar, não tinha mesa vaga.

- Pra quem eu tenho que dar pra conseguir uma mesa? – ele perguntou para um garçom que passava apressado apontando para um gorila enorme que tinha uma lista de nomes na mão, se aproximou do sujeito – Vitor Scaglia.

- Está demorando quando tempo? – perguntou a namorada, Beatriz. Era uma boa garota.

- Ah – disse ele com ar pensativo – está demorando viu...

“Fodeu”, pensou Vitor, fez uma cara de vamos embora daqui, mas Beatriz fez a cara de quero comer aquela torta de frango que só tem aqui, eles ficaram esperando, pediram uma cerveja e ficaram ali tomando em pé mesmo.

Olharam para as mesas, não parecia que alguém ia embora muito cedo, o negócio ia demorar, o lance era ficar bêbado e não praguejar sobre ficar em pé, porém as garrafas eram caras, havia perdido o costume de beber em bares, tomava cerveja em casa, comprava no mercado que ficava muito mais em conta, pensou sobre isso e se sentiu velho. Olhou para Beatriz, estava sorrindo, estava realmente se divertindo ali, só com ele, então ele sorriu e ficou mais a vontade, era realmente uma boa garota.

Pensou em Marcel, casado, com um filho que chamava Marcos, pensou que tipo de pessoa colocaria o nome do filho de Marcos, não fazia o menor sentido. Jorge ainda solteiro, mas jamais sairia em uma noite de quinta feira tendo que trabalhar no dia seguinte, era correto demais com o trabalho, não encararia o chefe de ressaca. Parecia que apenas ele havia sobrevivido levando o velho estilo de vida adiante, o lema era: foda-se o dia seguinte e vamos beber, mas quem podia culpar os amigos? Eles que estavam corretos, Vitor Scaglia era o pior exemplo quando o assunto era estilo de vida.

Beatriz era quem botava juízo na cabeça dele agora, não bebia até cair por aí ou vomitar até não poder mais, bebia bastante, dizer que parou de dar vexame seria uma mentira, mas não era mais um hábito.

- Olha aquele casal – disse ela apontando para um casal, o homem estava se levantando da mesa.

- Será que eles vão embora?

- Nem fodendo, é a terceira vez que ele levanta nos vinte minutos que a gente está aqui – ele passou correndo e foi ao banheiro – ou tem incontinência urinária ou está com uma caganeira.

- Coitado – disse Vitor, lembrando do banheiro nojento daquele lugar.

- Coitado daquele rapaz ali – disse ela apontando para um rapaz em uma mesa, ele tentava dar uns malhos na menina, mas aparentava ser o cara mais tímido do planeta, tentava colocar a mão em cima da mão dela, mas não tinha coragem, ficava vermelho, a testa brilhando de suor e a menina com uma cara de quem diz “Pelo amor de Deus meu filho, aperta a minha bunda logo porque eu não agüento mais esse lenga-lenga!”. Vitor e Beatriz riram dele, riram muito e só então perceberam que havia mais três mulheres na mesa, e pensaram “que tipo de sádica leva um cara pra um encontro com três amigas?” Aquela era uma mulher maquiavélica.

Havia uma mesa onde três nerds estavam com uma amiga descolada, provavelmente ela estava ali porque eles iam pagar a cerveja e falar para os outros amigos que conseguiram levá-la pra tomar umas, a mulher divagava, olhava pra cima, arranhava o rótulo da cerveja com a unha enquanto os moleques falavam sobre os conceitos do sabre de luz do mestre Mace Windu, que é diferente do conceito dos sabres de luz dos outros jedis.

Quando vagou uma mesa duas garotas vieram perguntar ao gorila se era a vez delas sentarem, mas ele chamou um grupo de três amigos e ela disse:

- Tem certeza que não é a gente?

- Se vocês quiserem sentar com a gente – disse um dos amigos que iam sentar, eram uns caras bem mais velhos e elas ficaram meio sem graça – sério mesmo, seria um prazer que vocês sentassem com a gente.

Vitor e Beatriz riram alto da cara das meninas que estavam sem graça da cantada barata que acabaram de levar.

A menina que fazia par com o cara que não parava de ir ao banheiro se levantou e foi usar o banheiro da doceria que ficava ao lado do bar na maior cara de pau, quando voltou várias pessoas do bar haviam observado o mico dela e ela ficou sem graça, eles foram embora logo depois. Foi com esta situação, depois de quase duas horas, que Vitor e Beatriz conseguiram uma mesa, quando sentaram pediram uma torta de frango, mais cerveja, mais torta de frango, mais cerveja, mais torta de frango e mais cerveja, acho que se empolgaram porque estavam enfim sentados, gastaram mais do que podiam, pelo menos a conta veio errada e pagaram menos.

Não se divertiam assim faz tempo.

Gustavo Campello

quinta-feira, 22 de julho de 2010

MEU TIO É UM BUNDÃO



Vitor Scaglia estava sentado no sofá ao lado do seu sobrinho tentando escrever sua primeira crônica, mas o pirralho ficava mudando o título. Então resolveu deixar do jeito que estava.

“O meu tio só pensa em ler livros. Ele compra uns dez mil de uma vez e lê em um dia todos de uma vez.” O garoto pensa.

Ah, como ele gostaria de fazer isso. Não tinha um tostão furado pra comprar livros atualmente, não tinha onde cair morto, estava pobre e todas as lâmpadas da sua casa tinham queimado de uma vez por causa de alguma fiação estragada. O moleque havia colocado o título para provocá-lo, mas o achava o máximo.

Vitor era um cara esquisito, pelo menos com o parâmetro que o garoto tinha, barbudo, desleixado, roupas esquisitas que eram moda nos anos 90, cabelo desgrenhado e sem corte, muito diferente do resto da família, e tinha um emprego engraçado, era escritor. Como assim era escritor? Havia ido em dois lançamentos de livros que continham um conto seu em antologias, mas não conseguia entender como o tio conseguia ganhar dinheiro com isso.

Simples, ele não ganhava dinheiro com isso.

Como ele sobrevivia?

Simples, ele não se preocupava com isso.

Vitor, o cara mais estranho da família Scaglia, todos gostavam dele, mas tinham medo de como ele iria aparecer em alguma festa, como estaria vestido? Iria vomitar na porta da igreja, bêbado, como fizera no casamento da tia? Tinham medo com certeza do que ele podia aprontar.

Então pra ele era simples, não aparecia em quase nenhuma festa, sentiam falta de sua presença, mas quando apareceu no casamento da prima, no ano passado, todos logo pensaram que ele poderia ter faltado, ficara bêbado, óbvio, e logo se pôs a falar sobre as irmãs gêmeas gostosas do noivo e de como as imaginara se agarrando no corredor da igreja quando entraram como damas de honra, as pernas se enroscando, uma beijando o pescoço da outra.

QUE TESÃO!

Todos se entreolhavam e perguntavam que porra de pensamento era aquele, elas eram irmãs, mas lógico que o primo comedido com pose de santo pensou na coisa toda olhando para as gêmeas achando que tudo era uma boa idéia.

Mas pelo menos era um herói para o sobrinho, que ainda estava sentado ao seu lado no sofá enquanto o tio ouvia aquela banda esquisita tocando no laptop, Little Quail and The Mad Birds, até as músicas que ele ouvia eram diferentes.

Pensou que quando crescesse poderia se tornar igual ao tio... Mais uma criança estava salva neste mundo.

Gustavo Campello